
Era uma entrevista como outra qualquer no YouTube. Dois jovens jornalistas sentados com um campeão brasileiro de 1994, relembrando os tempos de glória. Mas bastaram alguns minutos para o clima mudar. O veterano, que fez parte do elenco que trouxe o tetra para o Brasil, não estava ali só para contar histórias bonitas. Ele tinha algo para dizer. E disse sem filtro. O nome que saiu foi Neymar. E as palavras doeram.
“Eu acho que a Seleção precisa ficar um pouco mais forte. Seria importante o Neymar ter liderança, se ele realmente a tivesse, e não as coisas bobas que ele faz, sabe? Ele tem que chegar aos 34 anos numa Copa e inflar o peito, falar: ‘Olha, eu não vou jogar, vou ter que correr pra caramba porque se eu entrar…’ Não, né? Ele faz parte e não é sobre ele.”
A frase ecoou como um tiro. “Não é sobre ele.” Três palavras que resumem tudo o que o campeão de 94 vê de errado na Seleção atual. E ele não parou por aí.
Sentado ali, o ex-jogador que vestiu a amarela em 1994 relembrou como era diferente. Naquela época, o grupo tinha alma. Tinha identidade. Tinha líderes de verdade. Dunga, Raí (capitão até certo ponto), Mauro Silva, Taffarel, Jorginho. Sete jogadores repetiram de 1990 para 1994. Não era só experiência em campo – era liderança dentro e fora dele. Cafu começou no banco e virou lenda em três Copas, três finais. Era assim que se construía uma equipe campeã.
Hoje, segundo ele, falta isso. Faltam caras que “chamem a atenção”, que “gritem” quando necessário. Alisson, que está indo para sua terceira Copa e mantém nível alto há anos, precisa “berrar muito com esses moleques”. Casemiro, Marquinhos, Danilo – todos têm que ser responsáveis, cobrar, lembrar que “aqui você é amarelo, porra”. Não adianta chegar com ego de “eu jogo no Arsenal”, “eu sou do Real”. Quando vestem a camisa da Seleção, o hino é cantado do mesmo jeito por todo mundo.
O campeão foi direto ao ponto mais dolorido: o ego inflado pela era das redes sociais.
“Eu sinto, não sei se é por causa da era das redes sociais, mas acho que um pouco sim… A impressão que a gente tem, e acho que um pouco da falta de identidade que a gente tem com o Brasil, que está sendo recuperada agora, é porque parece que esses jogadores têm um ego muito grande. É muito sobre pensar na foto, no que vai sair. Falta em certos momentos: cara, larga isso. Se você ganhar isso aqui, se você focar nisso, você vai ser lembrado para sempre.”
Ele contrastou com 1994 de forma quase poética. Na concentração, só havia um celular – para emergências – que ficava com o chefe de segurança, Moisés. Romário tinha prioridade. Às vezes Gilmar tinha outro. Ponto final. Sem stories, sem reels, sem “olha meu drible”. O quarto dele com Mauro Silva era chamado de “paz e sossego”. Do lado estavam Bebeto, Romário e Dunga. “Eles eram espertos, colocaram o Romário para controlar as coisas”, brincou.
Na folga em San Francisco, o grupo foi a uma loja de som. Romário comprou uma caixa de som monstruosa. Ligou no quarto durante o dia inteiro. As janelas tremiam. Ninguém conseguia dormir no hotel. Era bagunça, era diversão de verdade. “Hoje a diversão é selfie. O jogo acaba e o cara já quer postar o drible, a bicicleta, o que ele fez. Não importa se ganhou ou perdeu. Ele quer mostrar o lance especial para ganhar like.”
A diferença é brutal. Em 94, o foco era o coletivo. A brincadeira unia. Hoje, parece que cada um está mais preocupado com a própria imagem do que com o resultado. E isso, para o campeão, destrói o grupo.
Ele não poupou nem mesmo a geração mais jovem que está chegando forte (Endrick no Lyon, Rayan explodindo em Bournemouth). Disse que é preciso misturar experiência com juventude, mas a experiência tem que ser de verdade – não só de jogos disputados, mas de caráter. “Você tem que cobrar. Tem que chamar a atenção se sentir que um atleta está saindo da linha.”
O contexto da Copa 2026 torna tudo ainda mais urgente. Com Carlo Ancelotti no comando, a Seleção busca exatamente essa mistura de pragmatismo e talento individual. Neymar voltou depois de três anos fora, carregando lesão, mas com a estrela intacta. O espaço existe para Endrick, Rayan e os outros moleques brilharem. Mas sem liderança forte por trás, o time vira um monte de individualidades – exatamente o que o campeão de 94 mais teme.

“Não é para colocar 10 jogadores a mais em campo porque o Neymar quer jogar. Isso destrói, destrói o grupo.” A frase é dura, mas direta. Em 94, ninguém era maior que o time. Nem Romário, nem Bebeto, nem Dunga. Todos serviam ao objetivo maior: trazer o tetra para casa.
O veterano, que nem era titular absoluto, ainda sente o peso da responsabilidade até hoje. Ele dá palestras, participa de eventos, fala sobre o legado. “A Copa é isso. Quem ganha, quem representa, é lembrado para sempre.” E é exatamente por isso que ele resolveu “disparar”. Porque vê o perigo se aproximando. Se o ego e as redes sociais continuarem mandando, o Brasil pode desperdiçar mais uma oportunidade.
Alisson, Casemiro, Marquinhos e os demais experientes têm a missão de segurar a barra. De gritar quando for preciso. De lembrar que a amarela não é sobre likes, é sobre história. Neymar, aos 34 anos, tem a chance de ser o líder que o Brasil precisa ou de continuar sendo o centro das atenções de forma negativa.
O campeão de 94 deixou o recado claro: liderança não é postar foto bonita. Liderança é inflar o peito, correr mais que todo mundo quando o time precisa, cobrar os companheiros e colocar o coletivo acima de qualquer coisa. Se isso não acontecer, as redes sociais vão continuar celebrando lances individuais enquanto o time perde coletivamente.
A Copa de 2026 está aí. O Brasil tem talento de sobra – os moleques estão chegando, Ancelotti está organizando a defesa e dando liberdade ao ataque. Mas talento sem caráter e sem liderança vira frustração, como já vimos tantas vezes.
O alerta veio de quem viveu o auge. De quem dividiu quarto com Mauro Silva, viu Romário ligar a caixa de som e destruir o sossego do hotel, sentiu na pele o que é ser parte de um grupo unido de verdade. Agora a bola está com a atual geração.
Ou Neymar e os veteranos entendem que “não é sobre ele”, ou o Brasil corre o risco de mais uma decepção. O campeão de 94 já deu o recado. Resta saber se alguém vai ouvir antes que seja tarde demais.
A história da Seleção está sendo escrita agora. E os capítulos mais importantes ainda estão por vir. Que eles sejam de glória coletiva – e não de selfies individuais. 🇧🇷