
Na tarde de ontem, no centro de treinamento da Seleção Brasileira, Carlo Ancelotti reuniu o grupo para o último ensaio antes do amistoso contra o Egito. O técnico italiano já havia testado várias formações nos dias anteriores, mas agora era hora de definir. Quando o nome de Danilo, do Botafogo, não foi chamado para o time titular, o clima mudou. Vários jogadores se entreolharam. A imprensa que cobria o treino notou o incômodo. A decisão estava tomada: Danilo ficaria de fora.
E essa foi, de longe, a maior surpresa da escalação que Ancelotti montou para o jogo de sábado.
O Brasil chega a esse amistoso após a vitória sobre o Panamá, com primeiro tempo ruim e segundo tempo excelente. Contra o Egito será diferente. Os africanos vêm de uma campanha sólida: apenas uma derrota nos últimos dez jogos, empate heroico contra a Espanha cheia de estrelas e uma equipe com muita química, especialmente os jogadores do Al Ahly. Mohamed Salah chega motivado depois de uma temporada ruim no Liverpool e com a saída do clube já anunciada. Omar Marmoush, do Manchester City, é titular absoluto no Egito e um dos atacantes mais inteligentes da atualidade. Trézéguet (ou o jogador referido como Trzegui) também pode dar dor de cabeça. O Egito não é o Panamá. Vai defender compacto, usar as transições rápidas e explorar os espaços que a Seleção deixar.
Para esse teste, Ancelotti optou por cinco mudanças em relação ao time que começou contra o Panamá. A escalação provável que ele testou no treino foi esta:
Alisson; Wesley, Marquinhos, Gabriel Magalhães, Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães, Lucas Paquetá; Vinicius Júnior, Igor Thiago, Raphinha.
No gol, Alisson é consenso. Na zaga, o retorno de Marquinhos e Gabriel Magalhães era esperado – eles são os titulares naturais e estavam ausentes por causa da final da Champions. Wesley na lateral direita é a novidade mais ousada. Douglas Santos na esquerda, no lugar de Alex Sandro, foi aplaudido pela maioria. O meio-campo ganhou um reforço importante: Ancelotti abandonou o 4-2-4 dos últimos tempos e voltou ao 4-3-3, com Casemiro e Bruno Guimarães por trás e Lucas Paquetá na frente. No ataque, Vinicius na esquerda (seu lado natural), Raphinha na direita e Igor Thiago como grande surpresa no centroavante.
A maioria das mudanças foi bem recebida. Douglas Santos está em melhor fase física que Alex Sandro no momento e traz mais intensidade. Paquetá no meio dá mais controle de bola, mais intensidade na marcação e ajuda a encurtar as distâncias entre os setores – algo que vinha faltando. Igor Thiago, que já havia entrado bem contra a Croácia (marcou gol) e contra o Panamá (participou do lance do pênalti e da jogada do gol de Rayan), traz mobilidade, jogo aéreo, pivô e, principalmente, vontade. Ele é daqueles que brigam toda bola, pressionam a defesa adversária e abrem espaço para os companheiros.
Mas a grande polêmica ficou mesmo com a ausência de Danilo.
O jogador do Botafogo chegou a este momento da preparação com números e atuações que, para muita gente, justificavam uma vaga no time titular. Ele entrou bem no segundo tempo contra a França, foi titular contra a Croácia e fez um gol sensacional, voltou a entrar contra o Panamá e novamente se destacou pela intensidade, pela marcação e pela chegada à área. No Botafogo, vive grande fase artilheira e está carregando o time na temporada. E, talvez o mais importante: mostrou excelente entrosamento com Lucas Paquetá quando os dois entraram juntos contra o Panamá – passes em um toque, movimentos combinados e até assistência de Paquetá para o gol de Danilo.
Por que, então, Ancelotti optou por deixá-lo de fora?
Alguns dirão que o técnico quis dar oportunidade a quem está há mais tempo no grupo ou que preferiu manter a base que venceu o Panamá no segundo tempo. Outros argumentam que Paquetá já garante a criatividade no meio e que Casemiro + Bruno Guimarães já formam um duo sólido. Mas a verdade é que Danilo, neste momento, parece mais inteiro fisicamente, mais intenso e mais decisivo que vários nomes que estão sendo testados. Deixar de fora exatamente o jogador que mais vem crescendo na preparação soa, no mínimo, como uma decisão conservadora demais.
A escalação como um todo tem méritos. O retorno de Marquinhos e Gabriel dá mais segurança à defesa. A entrada de Paquetá melhora o meio-campo. Igor Thiago pode ser uma opção interessante para forçar as defesas a recuarem e abrir espaços para Vini e Raphinha. Raphinha, aliás, precisa urgentemente de uma boa atuação – ele tem nome, mas ainda não convenceu na preparação e tem concorrentes fortes (Luís Henrique e até Rayan, que também vêm bem).
O problema é que, ao deixar Danilo de fora, Ancelotti corre o risco de desperdiçar um momento de forma excelente de um jogador que, além de tudo, traz características que o time tem precisado: chegada à área, intensidade sem bola e capacidade de decidir jogos. Em uma Copa do Mundo, esses detalhes fazem diferença.
O Egito não vai facilitar. Com Salah querendo se redimir, Marmoush buscando espaço e uma defesa organizada, o Brasil terá que suar para impor seu ritmo. A mudança para o 4-3-3 deve ajudar no controle de posse e na transição, mas a ausência de um jogador como Danilo no meio pode deixar a equipe um pouco mais previsível na hora de chegar ao ataque.
A preparação para a Copa de 2026 está no momento mais importante. Neymar ainda não está 100% (lesão na panturrilha) e deve voltar nos próximos dias, mas não para este jogo. Os jovens como Endrick, Rayan e Igor Thiago estão mostrando que merecem espaço. Os experientes precisam confirmar que ainda são indispensáveis. E decisões como a de deixar Danilo de fora geram questionamentos que vão muito além de um simples amistoso.
Ancelotti tem o direito de testar. Tem o direito de escolher. Mas quando um jogador chega com o momento que Danilo está vivendo e fica de fora justamente no momento em que o time mais precisa de intensidade e chegada, a dúvida fica no ar: será que o técnico está enxergando o mesmo que a torcida e boa parte da imprensa está vendo?
No sábado, contra o Egito, teremos a resposta em campo. Se o Brasil jogar bem mesmo sem Danilo, Ancelotti terá razão. Se o time sentir falta de um meio-campista com as características dele, a polêmica só vai crescer.
E a pergunta que fica é: até quando Danilo vai continuar sendo o “melhor em campo que fica no banco”?
A Copa está chegando. E decisões como essa podem custar caro quando o que está em jogo não for mais um amistoso contra o Egito, mas o hexa.
O que você acha? Danilo merecia ser titular contra o Egito ou Ancelotti acertou em poupá-lo? Comenta aí embaixo!