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CASAGRANDE: A NOJENTA VERDADE QUE VEIO À TONA

CASAGRANDE: A NOJENTA VERDADE QUE VEIO À TONA

Bicampeão pelo Corinthians, artilheiro da seleção e campeão em Portugal. E esse mesmo cara, anos depois, deitado no chão com uma seringa de substâncias presa no braço, enquanto seu filho de 12 anos batia na porta do banheiro chorando. O que ninguém ousou dizer por 37 anos é que Casagrande não se tornou um dependente sozinho.

Alguém colocou seu primeiro caminho na carreira em suas mãos quando ele tinha 14 anos, e essa pessoa nunca pagou por isso. Fique até o fim, irmão, porque hoje você vai saber o nome sobre o qual ele silenciou durante toda a sua provação, e por que essa pessoa continua viva, livre e sem o menor remorso.

Bairro do Brás, São Paulo, 1977. Uma casa de classe média baixa, piso de cerâmica, janelas de ferro e um quintal onde o pai consertava motores de carro aos domingos. Nessa casa morava um garoto de 14 anos, alto, magro, com cabelos longos até os ombros, fanático por rock pesado, que ouvia Janis Joplin e Jim Morrison em um toca-discos emprestado.

O nome dele era Walter Casagrande Júnior. Em três meses, ele iria ingressar nas categorias de base do Corinthians. Ele seria um ídolo, seria campeão paulista, vestiria a camisa da seleção. Mas, antes de tudo isso, certa noite de maio de 77, alguém que vivia sob o mesmo teto entrou no quarto dos fundos com um pedaço de papel dobrado na mão e disse uma frase curta ao menino Walter.

“Isso fará você ver o mundo de forma diferente?” Walter cheirou pela primeira vez. Eu tinha 14 anos. Ele não sabia que tinha começado naquela noite uma luta que duraria 37 anos de sua vida. E a pessoa que entregou aquele pedacinho de papel não era um amigo de bairro, também. Não era um colega de escola, era alguém do seu próprio sangue.

Chegaremos a esse nome eventualmente, mas ainda falta um pouco. A família Casagrande não era nem pobre nem rica. O pai, torneiro mecânico, um homem de poucas palavras, trabalhador e muitas vezes ausente. A mãe, Dona Maria, cuidava da casa, criava seus três filhos e rezava o rosário todas as noites.

Uma católica devota, uma mulher do campo, natural de Minas Gerais, que tinha chegado a São Paulo aos 18 anos para trabalhar em uma fábrica têxtil. Walter era o segundo dos filhos. Aconteciam coisas naquela casa que Dona Maria sabia, mas ficava quieta a respeito. A cachaça do pai nos fins de semana. As brigas e gritaria irrompiam quando ele voltava da fábrica.

E desde o final de 76, algo novo. Um primo de Walter, filho do irmão de seu pai, tinha se mudado para a casa depois que seus próprios pais o expulsaram. Ele tinha 22 anos, tocava violão, sonhava em ser músico, morava no quarto dos fundos, dormia até as 14h e fumava maconha no quintal quando ninguém estava olhando.

Para o garoto Walter, aquele primo era como um deus. Ele colocava discos de rock que ele não conhecia, contava histórias sobre festas em bairros do centro, ensinava acordes de violão; ele era o irmão mais velho que ele nunca teve em casa, porque seu irmão biológico, Roberto, era 5 anos mais novo. 48 anos depois, em uma entrevista de 2017 em um programa de televisão que quase ninguém viu, Casagrande proferiu uma frase que a família nunca esclareceu.

“Aprendi a admirar o que não deveria admirar muito cedo, dentro da minha própria casa. E a pessoa que me ensinou isso ainda está viva, ainda livre. Nunca pedi nada a ela, e nunca pedirei.” O jornalista perguntou de quem ele estava falando. Casagrande baixou o olhar e mudou de assunto. A entrevista nunca foi retransmitida.

Naquela mesma casa no Brás, em 77, aquele primo passou para o garoto Walter algo muito maior do que apenas um disco de rock. Mas chegaremos lá esta noite. Primeiro, você precisa entender por que Walter aceitou tão rapidamente. Porque um garoto de 14 anos, filho de uma mãe católica, irmão de uma criança mais nova, futuro jogador profissional, abriu a porta de sua vida para algo que o destruiria por quase quatro décadas.

A resposta tem a ver com o pai, com o silêncio do pai, com as noites em que o pai chegava em casa bêbado da fábrica e batia em Dona Maria na frente dos filhos. A cada manhã seguinte, quando aquele mesmo pai tomava café da manhã em silêncio, sem pedir desculpas, Casagrande cresceu com uma ideia simples enraizada em sua cabeça desde os 9 anos: “Um homem forte não pede perdão. Um homem forte consegue aguentar. Se algo está lhe ferindo por dentro, você engole.” Essa lição permitiu que ele entrasse no vestiário do Corinthians aos 15 anos sem chorar. Serviu ao seu propósito: enfrentar um zagueiro brutal em campo sem piscar. Serviu para ajudá-lo a suportar um treinador rígido, mas custou-lhe a vida.

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Porque o garoto que aprendeu a suportar tudo em silêncio era exatamente o mesmo que, 30 anos depois, não conseguia pedir ajuda até ter quatro overdoses em seu currículo. Entenderemos no devido tempo. Fique comigo, irmão. Em 1978, Walter fez sua estreia nas categorias de base do Corinthians. Deram-lhe o apelido de “Casão” por causa de sua altura. 1,87 m de altura aos 15 anos.

Como atacante, ele conseguia cabecear a bola como ninguém, e era tão rápido para um cara do seu tamanho. Mas o que realmente chamava a atenção não era apenas seu físico, era seu jeito. Em campo, ele era um touro. Fora daquele ambiente, ele era um garoto tímido que mal falava com pessoas mais velhas. Ele andava por aí com um walkie-talkie grudado no ouvido o tempo todo.

“Eu costumava ouvir AC/DC, Led Zeppelin e os Rolling Stones.” Seus companheiros de equipe zombavam dele porque ele não gostava de samba ou pagode. Deram-lhe o apelido de “O Roqueiro do Parque São Jorge”. E no Parque São Jorge, em 1980, ele conheceu um cara que mudaria sua vida de duas formas opostas: Sócrates, o doutor, o capitão, o intelectual do futebol brasileiro, o líder da Democracia Corintiana, que estava prestes a começar.

Sócrates tinha 26 anos, Casagrande tinha 17, mas nasceu entre os dois uma amizade fraternal, profunda e rara. Sócrates lia, falava sobre política e citava autores que Casagrande nunca tinha ouvido falar. E Casagrande falava com ele sobre música rock, apresentava-lhe a música do The Doors e contava histórias sobre Jim Morrison morrendo aos 27 anos de overdose em uma banheira em Paris.

Sócrates ouvia com uma mistura de fascinação e medo. O que nem Sócrates nem ninguém no Corinthians sabia naqueles anos, e o que nem a maioria de seus companheiros de equipe suspeitava até o final dos anos 80, é que Casagrande já usava cocaína há 3 anos quando se tornou profissional. Ele tinha feito sua estreia na equipe principal com o nariz queimado por dentro.

E esse segredo, conhecido por anos apenas por três pessoas, quase lhe custou seu lugar na seleção da Copa do Mundo de 1982. Havia alguém dentro do clube que o acobertava. Descobriremos quem era. Entre 1980 e 1983, Casagrande explodiu. Artilheiro do Corinthians, campeão paulista em 82 e 83 com o time da Democracia Corintiana.

Gol importante contra São Paulo, Palmeiras e Santos. Ele dedicou um gol a Rita Lee no segundo jogo do Campeonato Paulista de 1982, o famoso gol da Rita Lee, porque ela era sua cantora de rock favorita. Casagrande era pop, era roqueiro, era diferente de todos os outros no futebol brasileiro, aparecia em revistas que não eram esportivas, tocava violão no hotel do time, cantava com a banda Titãs quando subia ao palco em uma casa de shows de São Paulo, e bebia e usava drogas, mas fazia isso com mãos de ferro.

Ele era capaz de ficar duas semanas sem tocar em nada antes de um jogo importante. Ele cheirava cocaína na noite anterior, dormia por quatro horas, jogava na manhã seguinte sem que ninguém notasse, marcava gol, cabeceava a bola como uma trave, ia para casa, tomava banho e dormia sem lembrar do primeiro tempo da partida.

Em outubro de 1982, no dia antes de o Brasil jogar contra a Itália na Copa do Mundo da Espanha, alguém de dentro do Corinthians o pegou no banheiro do Parque São Jorge com um pequeno pedaço de papel na mão. Essa pessoa não denunciou, não falou com o presidente do clube, não falou com Telê Santana, o técnico da seleção, agarrou-o pelo braço, jogou o pedacinho de papel na privada, deu-lhe um tapa seco no rosto e disse cinco palavras que Casagrande lembrou até o dia de sua hospitalização em 2007.

Essa pessoa era o Dr. Adilson Monteiro Alves, diretor de futebol do Corinthians, o mentor político da Democracia Corintiana, o cara que salvou sua carreira naquele dia. Seguiremos o fio, mas primeiro precisamos responder à pergunta do início. Fique comigo. Em 85, após vencer o Campeonato Paulista duas vezes, após três anos de glória com a era democrática do Corinthians, após a partida de Sócrates para a Itália, Casagrande tomou uma decisão que lhe daria uma trégua de oito anos com a cocaína.

Ele aceitou uma oferta do Porto em Portugal, três temporadas, salário em dólares, apartamento com vista para o Rio Douro e uma parceira brasileira que se mudou com ele. E algo mais importante do que tudo isso: distância. Distância do seu primo, distância do bairro, distância dos amigos que o abasteciam de drogas, distância da vida noturna de São Paulo que o estava matando lentamente.

Em Portugal, Casagrande se limpou. “Oito anos sem tocar em cocaína, ele mesmo disse em uma entrevista de 2008. Ele disse: Em Portugal eu era uma pessoa diferente, sem drogas, sem maconha, sem cocaína. Venci o campeonato português com o Porto em 86. Joguei pela seleção brasileira e dormia bem à noite. A distância me salvou, mas a distância não foi suficiente, porque a distância só funciona até o dia em que alguém vem buscar você. E vieram buscar Casagrande em 93, mas ainda faltam oito anos.” Antes de chegarmos àquela noite em Turim, precisamos encerrar a pergunta que foi aberta no início. Quem entregou aquele primeiro pedacinho de papel na Casa do Brás em 77? Quem entrou no quarto dos fundos naquela noite de maio? Quem disse aquela frase curta? Quem destruiu a vida de um garoto de 14 anos antes de ele começar a ser um jogador profissional?

Vamos descobrir agora, porque sem entender aquele primeiro momento, é impossível entender qualquer um dos que vieram depois. O nome sobre o qual Casagrande silenciou por 37 anos é o de seu primo, Edinho. Edson Casagrande, filho do irmão do pai de Walter, nascido em 55, criado na Mooca, expulso de casa aos 21 por roubar dinheiro da mãe para comprar cocaína.

Ele foi acolhido por Dona Maria no quarto dos fundos da Casa do Brás, no final de 76. Edinho era um músico frustrado, tocava guitarra, sonhava em viver da música, trabalhava ocasionalmente em uma oficina mecânica do bairro para sustentar seu vício, e desde os 18 anos usava cocaína todos os dias, comprando de um fornecedor na região central de São Paulo, área conhecida nos anos 70 pela circulação aberta de drogas em bares sórdidos.

Quando se mudou para a casa da família Casagrande, Dona Maria fez apenas uma exigência: “Nada de drogas na casa.” Edinho prometeu. Dona Maria acreditou nele, mas por seis meses, enquanto todos dormiam, Edinho usava drogas no quarto dos fundos, trancado por dentro, com o ventilador ligado, para que o cheiro de tabaco misturado com cocaína não chegasse à cozinha.

A noite de 14 de maio de 77, a data que Casagrande relembrou exatamente em sua autobiografia, embora tenha mudado um detalhe para proteger seu primo, foi quando Edinho chamou Walter para o pequeno quarto dos fundos. O garoto estava entediado. Era sábado à noite. Seus pais tinham ido a uma festa de família na Mooca. Seu irmão mais novo estava dormindo.

Walter entrou no quarto pensando que seu primo ia lhe ensinar um novo acorde de guitarra. Edinho fechou a porta, tirou um pedaço de papel dobrado do bolso de trás e abriu-o em cima da cômoda. Casagrande, em seu livro, descreve assim: “Era um pó branco, muito fino, brilhando sob a luz amarela da lâmpada. Eu nunca tinha visto cocaína de perto, mas sabia o que era. Tinha visto em filmes, tinha ouvido em músicas.” Edinho preparou duas carreiras com um cartão de plástico, deu ao menino uma nota enrolada e disse aquela frase curta. Ele disse: “Will this make you see the world differently?”

Walter cheirou, depois Edinho cheirou. O garoto sentiu primeiro uma ardência no nariz, depois uma luz que desceu pela garganta. Depois veio uma euforia que durou 40 minutos. Depois uma queda pesada, escura e triste que durou três dias. Mas a primeira euforia, aquela primeira vez, marcou seu cérebro de uma forma que ele não conseguiria quebrar até completar 52 anos. Quase quatro décadas depois. Dona Maria descobriu meses depois, no final de 77, ela encontrou um pequeno papel branco no bolso da calça de Edinho enquanto lavava roupa.

Ela confrontou seu sobrinho naquela mesma noite. Edinho chorou. Ele implorou a ela que não contasse ao pai de Walter, implorou que não o expulsasse da casa. Ele prometeu que pararia. Dona Maria acreditou nele pela segunda vez, mas ela fez algo pior do que acreditar nele. Ela não contou ao marido, ela não contou ao pai de Walter e, o mais importante, ela não perguntou ao seu filho de 15 anos, que já jogava nas categorias de base do Corinthians, se ele também tinha usado drogas, por medo da resposta e medo do sobrenome, por medo do que as pessoas diriam.

Edinho ficou na casa até março de 78. Ele foi morar sozinho em um quarto de pensão no centro de São Paulo. Durante aqueles meses extras de convivência, Walter continuou usando cocaína com ele, secretamente uma ou duas vezes por semana. Sua mãe sabia e ficou quieta. Edinho agora tem 70 anos.

Ele mora em uma casa modesta em Limeira, no interior de São Paulo, com sua segunda esposa. Ele tem três filhos. Trabalhou até os 65 anos em uma pequena oficina de instrumentos musicais. Ele está limpo das drogas desde 1995, segundo o que ele mesmo disse em uma entrevista para um programa local em Limeira, em 2018. Nessa entrevista, quando perguntado sobre seu famoso primo, Edinho disse apenas uma frase.

Ele disse: “Walter e eu nos damos bem. Ele me perdoou há muito tempo.” O jornalista não perguntou por que ele precisava ser perdoado, mas seu primeiro uso de cocaína aos 14 anos foi apenas o começo. O que verdadeiramente destruiu Casagrande não foi aquele primeiro pedacinho de papel no quarto dos fundos.

Foi o que aconteceu 30 anos depois, na madrugada de março de 2007, em um apartamento na zona oeste de São Paulo, quando Massimi, o filho de 12 anos, entrou no banheiro e o encontrou deitado no chão, sem respirar, com a seringa presa no braço esquerdo. O que aquele garoto fez naquela noite? As ligações que ele fez e as que não fez, as decisões que ele tomou aos 12 anos e, acima de tudo, o que ele escreveu em uma folha de papel antes de sair ao amanhecer com sua mãe, foi o que finalmente forçou Casagrande a se internar em uma clínica de reabilitação. E a Folha ainda existe hoje.

Casagrande guardou, mostrando apenas uma vez, especificamente para uma jornalista da revista 451 em 2024. As quatro linhas diziam literalmente: “Pai, eu sei quem te traz aqui.” Eu vi uma vez na porta. Se você não parar, eu conto. E sabe para quem é? Aquelas quatro linhas foram o que levaram Casagrande ao hospital seis meses depois. Não foi o acidente de carro que ele sofreu em agosto de 2007. Não foi a pressão da família, não foi a depressão profunda. Essas quatro linhas foram escritas por um garoto de 12 anos às 4h30 da manhã em uma folha arrancada de um caderno de matemática.

Porque o garoto tinha visto alguém, ele tinha visto a pessoa que entregava drogas a Casagrande. E essa pessoa, como soubemos mais tarde, não era apenas um fornecedor qualquer em São Paulo; era alguém com um histórico, alguém que já tinha aparecido na vida de Casagrande 14 anos antes em outra cidade, em outro país, em outro idioma.

Era alguém que o garoto só tinha visto uma vez, mas a quem reconheceu por uma marca no rosto. E essa marca, aquela cicatriz fina que cruzava sua bochecha esquerda, era o detalhe exato que Casagrande tinha mencionado anos antes em uma conversa durante um jantar que o garoto ouviu por acaso quando tinha 9 anos, e que ele lembrou sem saber por que ficou gravado em sua memória.

Vamos descobrir quem era essa pessoa, vamos descobrir por que ela cruzou o oceano, vamos descobrir o que havia dentro do envelope que ela levou à clínica no dia em que Casagrande foi internado. E quem sabe por que Casagrande, depois de tudo isso, depois das quatro linhas de papel do seu filho, depois da clínica, depois da sobriedade, depois dos livros, depois da Globo, nunca a denunciou até hoje. Março de 2007, uma semana após a noite em que seu filho deslizou o papel sob a porta.

Casagrande ainda morava em seu apartamento na Vila Madalena. Ele não tinha saído, não tinha falado com ninguém, exceto com Raí, que passava para vê-lo a cada dois dias com uma sacola de comida e um olhar cansado. A folha com as quatro linhas estava na mesa da sala, dobrada ao meio sobre um livro de Charles Bukowski, que Casagrande tinha deixado aberto em uma página aleatória.

Casagrande lia o jornal duas ou três vezes por dia. Ele abria, lia, dobrava novamente, sem chorar, sem se mover, como se estivesse esperando que as palavras mudassem sozinhas. Mas as palavras não mudavam, e daquela página em diante, tudo o que aconteceu foi uma contagem regressiva para a clínica.

Mas Casagrande não sabia naquele momento o que o espectador já sabe. Ele ainda não tinha conectado ela com seu passado italiano. Ele entenderia mais tarde na clínica, durante uma visita que ninguém esperava. Mas antes de chegarmos a essa visita, precisamos voltar no tempo. Precisamos voltar a Turim, à Itália, a Gianluca Bertini e ao massagista. Porque entre 1994 e 2007, passaram-se 13 anos nos quais Bertini não desapareceu da vida de Casagrande, ele apenas mudou de local. Em 1998, Bertini foi demitido do Torino após uma investigação interna sobre irregularidades dentro do departamento médico do clube.

A investigação nunca chegou aos tribunais; foi arquivada. A família Bofort deu um jeito. Bertini recebeu uma indenização modesta e desapareceu de Turim, mas não voltou para sua pequena aldeia. Ele fez outra coisa. Em 1996, durante uma pausa na pré-temporada do Torino, Bertini tinha viajado para São Paulo com um grupo de italianos para conhecer a cidade.

Nessa viagem, ele conheceu Luciana Almeida, uma brasileira de 32 anos, separada, sem filhos, que possuía um pequeno salão de beleza no bairro de Pinheiros. Eles começaram um relacionamento à distância. Eles se casaram em uma pequena cerimônia em Turim em 97. E após ser demitido do Torino em 98, Bertini mudou-se para São Paulo.

Ele acabou se instalando em um apartamento no bairro da Vila Mariana. Ela trabalhou por anos como massagista particular para uma clínica de estética. Ele teve um filho com Luciana em 2000. Aprendeu português o suficiente para se virar com habilidades básicas. Ele sempre manteve um forte sotaque italiano que qualquer um poderia reconhecer na primeira frase, e também manteve sua conexão com o Brasil de outra forma.

Bertini nunca abandonou completamente o negócio; ele continuou operando discretamente. Não era venda, era? Ele oferecia o mesmo que em Turim, ele esperava, identificava a situação e atacava quando estava certo. Entre 1999 e 2005, Bertini forneceu drogas a vários brasileiros ligados ao futebol e ao rock.

Alguns aceitaram, outros não. A Polícia de São Paulo, em uma investigação de 2018 sobre uma rede de tráfico de drogas em pequena escala em Pinheiros e Vila Madalena, mencionou seu nome em um relatório interno que nunca chegou à imprensa. Bertini foi interrogado duas vezes e liberado nas duas vezes. Eles não tinham provas, mas havia uma pessoa a quem Bertini ofereceu drogas várias vezes entre 2000 e 2006.

Uma pessoa a quem Bertini sempre considerou a maior conquista silenciosa de seu tempo no Torino. Uma pessoa a quem ele, em seus próprios termos pessoais, sentia ter dado o melhor que podia. Essa pessoa era Casagrande. Bertini começou a contatá-lo em 2001, após a segunda overdose de Casagrande no Rio. Ele o encontrou através de um músico de rock em comum e enviou uma mensagem curta.

Casagrande não respondeu na primeira vez, nem na segunda, mas respondeu na terceira vez, em fevereiro de 2002, quando estava limpo há 11 meses e sentia a necessidade de usar novamente. Bertini era o único fornecedor em São Paulo que entendia suas sensibilidades italianas, seu gosto por cocaína de certa pureza, sua história.

Casagrande ligou, Bertini recebeu-o em seu apartamento na Vila Mariana naquela mesma noite, e os dois homens, sem dizer muito, reacenderam um relacionamento que durou anos em silêncio. A partir de 2002, Bertini tornou-se o fornecedor regular de Casagrande. Ele não era o único, mas era o principal. Bertini levava as drogas ao seu apartamento na Vila Madalena duas ou três vezes por mês, sempre à noite, sempre sozinho.

Ele tocava a campainha, subia, deixava o pacote na mesa da sala, recebia o pagamento em dinheiro, conversava por 20 minutos sobre futebol italiano e depois ia embora. Era o corpo, era o rosto, era a sombra que Casagrande tinha deixado entrar. E era a pessoa que o filho de 12 anos tinha visto na porta do apartamento apenas uma vez, dois meses antes da madrugada de março de 2007.

Ele tinha visto porque naquele dia o garoto tinha chegado ao apartamento do pai mais cedo do que o esperado, trazido por sua mãe, que tinha um compromisso de trabalho de última hora. O garoto tocou a campainha. Bertini, que estava dentro entregando um pacote, saiu para abrir, achando que era Casagrande que tinha descido até o portão.

E o garoto viu, ele viu de perto, viu seu rosto, viu seu sotaque e viu especialmente a cicatriz fina que cruzava sua bochecha esquerda, do lóbulo da orelha ao canto da boca. Bertini tinha aquela cicatriz desde 89. Ele a ganhou em uma briga com um membro de outra família mafiosa de Turim. Durante uma negociação que deu errado, era uma marca reconhecível, inconfundível.

E o garoto, que tinha 9 anos na época, tinha guardado sem entender por quê. Por que você guardou? Porque de uma conversa que ele tinha ouvido três meses antes, durante um jantar de família na casa de sua tia paterna. Casagrande contava uma história da Itália, sobre um jogo entre Torino e Inter. Ele tinha mencionado um massagista italiano no clube e tinha deixado passar um detalhe.

“O cara tinha uma cicatriz longa e fina no rosto. Parecia uma marca de caneta. Nunca perguntei o que era, nunca quis saber.” O garoto sentado ao lado da mãe tinha ouvido aquela frase sem entendê-la, mas a tinha guardado. E três meses depois, quando viu a cicatriz no rosto do cara que abriu a porta para o apartamento de seu pai, ele ligou os pontos.

Ele não sabia exatamente o que significava, mas sabia que aquele cara tinha algo a ver com a Itália que seu pai nunca quis lhe contar. Isso foi o que o garoto escreveu na página do caderno: “Pai, eu sei quem te traz aqui. Eu vi uma vez na porta. Se você não parar, eu conto.” E você sabe para quem é? Aquilo não era para uma ameaça pública, não era para a imprensa, não era para a polícia; era apenas para uma pessoa, uma pessoa específica a quem Casagrande temia mais do que qualquer manchete de jornal.

E vamos descobrir quem, mas antes de saber para quem é, precisamos entender o que aconteceu 4 meses depois. Em agosto de 2007, Casagrande sofreu um acidente de carro que o levou ao hospital e de lá para uma clínica de internação compulsória. E quando Gianluca Bertini, duas semanas após a internação, apareceu na entrada do Instituto Bairral de Itapira, uma clínica psiquiátrica no interior de São Paulo, com um envelope amarelo na mão pedindo para vê-lo.

O acidente aconteceu na quarta-feira, 7 de agosto de 2007, às 2h da manhã. Casagrande dirigia embriagado e sob efeito de drogas pela Avenida 23 de Maio. Ele atingiu uma coluna de cimento. O carro foi destruído. Casagrande sobreviveu por um milagre. Levaram-no ao hospital. Realizaram exames e encontraram cocaína, álcool, heroína e benzodiazepínicos em seu sangue — quatro substâncias ao mesmo tempo.

A família, chefiada por sua segunda esposa, de quem estava separado, e por Raí, assinou o pedido de internação compulsória. Eles o transferiram para o Instituto Bairral. Uma clínica respeitável, com longa tradição e protocolos rigorosos, localizada a 5 horas de carro de São Paulo.

Casagrande seria internado por 13 meses, sem visitas nas primeiras duas semanas devido ao protocolo médico, sem telefone, sem internet, sem contato com ninguém. Mas em 14 de agosto de 2007, no sétimo dia de sua internação, Gianluca Bertini apareceu na entrada do instituto. Ele chegou sozinho em seu próprio carro, vestindo um terno cinza e sapatos italianos velhos.

Ele tinha 61 anos. A cicatriz em sua bochecha estava mais perceptível do que nunca com a passagem do tempo. Em sua mão, um envelope amarelo feito de papel pardo, selado com fita adesiva transparente. Ele disse à recepcionista que era amigo da família e mencionou o nome de Casagrande. A recepcionista explicou que não havia visitante autorizado.

Bertini pediu que ela chamasse o médico responsável. A recepcionista chamou. O médico desceu. Conversaram por 15 minutos. Bertini entregou o envelope e disse a eles que o entregassem ao paciente na primeira vez em que ele tivesse permissão para receber visitas. Ele falou uma frase em italiano que a recepcionista ouviu, mas não entendeu, e então foi embora.

Dentro do envelope amarelo que Gianluca Bertini deixou na clínica em Itapira, havia nove fotografias e uma folha de papel dobrada em três. As nove fotografias eram instantâneos coloridos, tirados com uma câmera de bolso do tipo usado no início dos anos 1990. Elas mostravam Casagrande em um hotel de Turim entre 90 e 94, durante sua sessão de bebedeira. Em três das fotos, Casagrande estava com dois outros jogadores brasileiros e um jogador argentino do Torino, todos em uma cena clara de uso de cocaína. Em duas das fotos, Casagrande estava se injetando. Nas quatro restantes, ele dormia com os olhos meio abertos, seminu, com uma marca no braço, em um quarto de hotel que qualquer um familiarizado com Turim reconheceria imediatamente.

As fotos tinham sido tiradas pelo próprio Bertini, com o conhecimento parcial de Casagrande, durante aqueles meses em que o massagista o tinha convencido de que aquelas imagens eram uma garantia para ele, garantindo que a família Bofort nunca o trairia. Casagrande, em meio a uma recaída após a morte de sua mãe, tinha aceitado. Ele tinha esquecido completamente que existiam. Por 13 anos ele não tinha pensado nelas novamente. A folha de papel, dobrada em três, tinha seis linhas de texto manuscrito em italiano. A linha seis afirmava o seguinte: “Casagrande relembrou com precisão até em 2024, de acordo com uma conversa privada confirmada por duas pessoas próximas a ele.”

Traduzido para o português, diziam: “Walter, eu sei o que aconteceu. Eu sei que seu filho escreveu algo. Estas fotografias existem. Não quero usá-las, mas os Bofort querem. Se você continuar internado e começar a falar de mim, eles falarão de você. Se você ficar quieto, eu fico quieto e ninguém nunca saberá quem lhe deu sua primeira carreira em Turim. Seu filho está protegido se você estiver protegido. É sua decisão.” Casagrande recebeu esse envelope na 10ª semana de sua internação, quando o regime médico permitiu a primeira revisão da correspondência atrasada. Ele abriu na presença de seu psiquiatra, o Dr. Ronaldo Laranjeira. Ele chorou por quase uma hora.

Sem se mover, sem falar, o psiquiatra deixou. Então ele perguntou o que ele queria fazer com aquelas fotos. Casagrande respondeu que ele deveria queimá-las na sua frente. O Dr. Laranjeira as queimou. Em um cinzeiro de metal, acendendo cada fotografia com um isqueiro de cozinha, as nove imagens desapareceram em menos de 3 minutos. Casagrande não deixou a folha com as seis linhas queimar.

Ele a dobrou, colocou-a no bolso interno de seu pijama. Ele a guardou até hoje e nunca denunciou Bertini. Há três razões pelas quais ele não o denunciou. Segundo Casagrande, ele explicou parcialmente isso em seu livro de 2013, sem citar nomes. Mas a verdadeira razão é a quarta, e é a que conecta tudo.

A primeira razão pública: as provas contra ele eram fortes demais. As fotos o destruíam como ídolo, como comentarista, como pai. A segunda razão pública: Bertini tinha laços com uma organização italiana que poderia agir contra sua família em São Paulo. A terceira razão pública: Casagrande não queria entrar na vida de seu filho de 12 anos com um processo legal longo, mediático e doloroso.

Mas a quarta razão, a real, aquela que Casagrande nunca contou a ninguém, nem ao Dr. Laranjeira, nem a seu filho, nem ao seu amigo Raí, é esta: a nota do garoto dizia: “Se você não parar, eu conto.” E você sabe para quem é? Para quem era isso? Dona Maria, a mãe de Casagrande, avó do garoto, estava morta desde fevereiro de 1994.

O garoto de 12 anos, com sua sensibilidade rara, tinha escrito aquela frase pensando em sua avó. A avó que ele quase não tinha conhecido, a avó de quem seu pai sempre falava com culpa, com dor, com um peso que o garoto percebia sem entender. O garoto tinha escrito aquela frase com a intenção de dizer algo sem entender completamente o que estava dizendo.

“Pai, se você não parar, ela vai descobrir de alguma forma, e ela não merece isso. Ela já está morta. Deixe-a em paz.” Casagrande entendeu a nota, ao contrário de todos os outros. Ele entendeu como uma mensagem de seu filho conectando-o com sua falecida mãe. Ele entendeu como uma ordem silenciosa que Dona Maria estava enviando do além através de seu neto. E para Casagrande, um católico, não praticante, mas um crente, essa interpretação pesou mais do que qualquer acusação, mais do que qualquer julgamento, mais do que qualquer verdade pública. Sua mãe, que tinha ficado quieta sobre Edinho em 77, agora pedia, através de seu neto, que ele também ficasse quieto, que ele parasse, que ele ficasse quieto e deixasse os mortos em paz.

Casagrande parou, Casagrande ficou quieto. Casagrande deixou os mortos em paz, e os vivos também. Edinho continua livre em Limeira. Bertini continua livre na Vila Mariana, agora viúvo, com seu filho brasileiro já adulto, perto do fim de sua vida. Nenhum deles nunca pagou por nada.

Casagrande deixou a clínica de Itapira em setembro de 2008, após 13 meses de internação e 37 anos de uso de drogas. Quatro overdoses. Um filho de 12 anos torna-se testemunha da pior noite de sua vida. Uma mãe morta, carregada como um estandarte silencioso de culpa, e dois homens livres a quem ninguém jamais julgaria.

Casagrande voltou à Globo em 2009. Voltou como um comentarista limpo, de terno e gravata, cabelos grisalhos e um sorriso contido. Ele falava sobre futebol com autoridade técnica. E ninguém em nenhum programa nunca o perguntou sobre a noite de 17 de março de 2007, nem sobre a cicatriz no cara que entrou no apartamento, nem sobre as quatro linhas escritas por uma criança.

O filho, agora um homem de 31 anos, vive em Lisboa desde 2019. Trabalha para uma empresa de tecnologia, é casado e não tem filhos. Ele visita seu pai duas vezes por ano, conversam um pouco, comem juntos e caminham na praia quando Casagrande viaja para Portugal de férias. Nos 18 anos que se passaram desde aquela madrugada, pai e filho nunca falaram sobre aquela noite.

Nem sequer uma vez. O silêncio entre pai e filho é um legado que pesa mais do que laços de sangue. E nesta família, o silêncio começou em uma casa no Brás em 77, continuou em um quarto de hotel em Turim em 93. Terminou em uma folha de papel na Vila Madalena em 2007. Três gerações, três silêncios, três quartos fechados. Dona Maria ficou quieta para proteger o nome da família. Casagrande ficou em silêncio para proteger sua mãe morta e seu filho vivo. E o filho ficou em silêncio para proteger seu pai. Cada um carregou o que não deveria ter carregado. Cada um achou que, ao ficar em silêncio, estava ajudando. E cada um, ao ficar em silêncio, passou o legado silencioso para o próximo: “Esta não é a história de um jogador que caiu por causa das drogas.”

É a história de uma família que aprendeu a ficar em silêncio antes de perdoar. Uma família onde a dor passava de mão em mão sem que ninguém tivesse a coragem de soltar. Uma família onde o primo músico continuou livre, onde o massagista italiano continuou cobrando, onde o garoto de 12 anos cresceu com o peso de uma avó que nunca conheceu, e onde o pai, agora com 62 anos, ainda guarda uma folha de papel amarelada com seis linhas em italiano em uma gaveta de sua mesa que ele nunca mostrou a ninguém.

Casagrande é comentarista da Globo, é respeitado, é admirado, é um exemplo de recuperação, mas nenhum livro, nenhum documentário oficial, nenhuma entrevista na televisão brasileira revelou o nome do primo que lhe entregou o pedacinho de papel aos 14 anos, nem o nome do massagista italiano da Vila Mariana, nem o que diziam as quatro linhas escritas por uma criança de 12 anos em uma folha de papel de caderno. Esses três nomes e essas quatro linhas permanecem armazenados na cabeça de Casagrande, nas gavetas de sua casa, na memória de um filho que agora vive em Lisboa. E enquanto esses nomes permanecerem guardados, existe uma família que não cura, uma dor que não termina, um legado que continua passando silenciosamente de um quarto para o próximo: “Pense esta noite na sua própria família, irmão.”

Pense nos primos que você não vê mais no Natal porque algo aconteceu e ninguém fala sobre isso. Pense nos tios que pararam de ir às reuniões porque houve um incidente que sua mãe acobertou. Pense nos avôs que levaram para o túmulo histórias que ninguém nunca conheceu porque doíam tanto.

Pense nas crianças que cresceram ao lado do pai, que suportaram silenciosamente certas coisas, e cujo silêncio marcou suas vidas sem que elas soubessem do que se tratava. Casagrande aprendeu a suportar com seu pai, aprendeu a ficar quieto com sua mãe, aprendeu a usar [drogas] com seu primo, aprendeu a recair com o massagista italiano e aprendeu a sobreviver graças a uma folha de caderno de matemática escrita por um garoto que achava que estava protegendo uma avó morta. Cada lição levou anos.

Cada nome não dito custou um pedaço de vida. E mesmo assim, com tudo o que perdeu, ele está vivo hoje. Ele está sóbrio hoje. Ele é pai hoje. Hoje ele é comentarista, mas as perguntas que seu filho nunca lhe fez ainda estão lá. As quatro linhas que aquela criança escreveu naquela manhã ainda estão preservadas.

E os dois caras que fizeram mais mal a Casagrande em 37 anos permanecem livres, sem remorso, vivendo vidas comuns em uma cidade brasileira, enquanto ele aparece na tela da Globo todo domingo para falar de futebol de terno e gravata, com um sorriso contido e voz calma, como se nada disso tivesse acontecido. Se esta história tocou você de alguma forma, se fez você pensar em alguém em sua própria família, em algum silêncio que você carrega, em algum nome que ninguém quer dizer em voz alta, inscreva-se no canal, siga o Fallen Stars, porque as histórias que a imprensa não conta são as que mais precisamos ouvir para entender do que somos feitos. E compartilhe o PS com aquela pessoa em quem você estava pensando enquanto ouvia. Aquela pessoa que você conhece, ligue para ela esta noite antes que seja tarde demais. Foi tarde demais para Casagrande com sua mãe, foi tarde demais para Casagrande com seu filho, e é tarde demais para quase todo mundo quando finalmente entendem sobre o que estavam mantendo silêncio.