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ROBINHO: CONFESSOU A NOJENTA VERDADE

ROBINHO: CONFESSOU A NOJENTA VERDADE

O melhor jogador da Copa América, o herdeiro designado de Pelé. E esse mesmo homem agora dorme em uma cela comum, condenado por estupro coletivo, incapaz de ver o próprio filho. Mas o que nunca lhe contaram é por que um homem que tinha tudo acabou destruindo uma mulher em uma boate de Milão. E por que aquela noite não começou em Milão? Começou 9 anos antes, quando sua mãe foi sequestrada.

Hoje você vai descobrir quem sequestrou a mãe de Robinho. E o que eles realmente queriam em troca de devolvê-la viva. Mas antes daquela noite de 20 de dezembro a 3 de janeiro de 2013, há algo que você precisa entender, porque o que aconteceu na boate Old Fashion Café em Milão não começou naquela noite; começou 29 anos antes em uma favela em São Vicente, uma cidade portuária na região da Baixada Santista, no estado de São Paulo, Brasil.

Em 25 de janeiro de 1984, nasceu ali Robson de Souza, o segundo de três irmãos. O pai, Dilvan, era pedreiro. Ele carregava sacos de 50 kg de cimento por 10 horas por dia. A mãe, Dona Marina, era empregada doméstica. “Eu costumava limpar a casa de uma família rica no Boqueirão, em Santos. Pegava dois ônibus todas as manhãs, saindo de casa às 5h30 e voltando às 21h, ganhando o equivalente a 120 reais por mês hoje.”

“Lembre-se deste nome, Marina, nós chegaremos lá.” Robson, desde os 4 anos, costumava brincar na rua de terra da comunidade com seis crianças descalças, jogando com uma bola de plástico cortada. E mesmo naquela época, todos no bairro sabiam que aquele menino tinha algo diferente. Ele driblava os garotos de 12 anos sem que eles pudessem tocá-lo, como se a bola estivesse colada ao pé.

Aos 7 anos, sua mãe, Marina, o matriculou na escolinha de futebol do bairro. R$ 5 por mês. Dona Marina trabalhava um dia extra de faxina para pagar. Aos 13 anos, ele foi descoberto por um homem chamado Carlos Bercó, um olheiro do Santos Futebol Clube, que já havia descoberto Diego e logo descobriria Neymar.

Mas entre Dona Marina e aquele baile milanês, havia um personagem que ainda não tinha aparecido: um primo, um primo de segundo grau. E um dia aquele primo trairia Dona Marina por dinheiro. “Nós chegaremos lá.” A família de Robson incluía um primo de segundo grau por parte de mãe. Seu nome era Edmilson Rocha. “Eu tinha 16 anos quando meu primo Robson tinha nove. Morava a três quarteirões da casa. Trabalhava como ajudante de mecânico em uma oficina na Avenida Conselheiro Nébias.” E desde o primeiro dia em que o olheiro do Santos chegou ao bairro procurando por Robson, Edmilson sentiu algo que nunca conseguiu colocar em palavras, algo que só surgiu anos depois em uma gravação da Polícia Civil de São Paulo, mas ainda não.

Aos 14 anos, em 1998, Robson assinou seu primeiro contrato profissional com o Santos, por R$ 200 por mês. Dona Marina chorou por três dias seguidos. Edmilson, o primo, não o abraçou, apertou sua mão e disse sete palavras. Ele falou sete vezes. Sete palavras que mais tarde reapareceriam naquela mesma gravação policial: “Lembre-se de mim quando você estiver lá em cima.”

Lembre-se de mim quando você estiver lá em cima? Robson assinou. E em 1999, aos 15 anos, foi convocado para a seleção brasileira sub-17. Copa do Mundo Sub-17 na Nova Zelândia. O Brasil venceu o campeonato. Robson, em uma jogada durante as quartas de final contra a Austrália, driblou cinco defensores e empurrou a bola para a rede com o calcanhar.

Aquele gol foi exibido na televisão brasileira por meses, e um comentarista da Globo, Galvão Bueno, proferiu uma frase ao vivo que mudou a vida de Robson para sempre: “Acabei de ver o herdeiro de Pelé.” O herdeiro de Pelé. Essa frase assombraria Robson pelos próximos 25 anos e, no final, o destruiria. Aos 18 anos, em 2002, Robson era titular do Santos Futebol Clube.

Naquele ano, o Santos venceu o Campeonato Brasileiro após um jejum de 42 anos. 42 anos sem vencer nada. A final foi contra o Corinthians, disputada em dois jogos. Robson marcou dois gols no primeiro jogo e deu a assistência para o terceiro no segundo. E naquela noite, após a comemoração no vestiário do estádio da Vila Belmiro, o próprio Pelé entrou no vestiário com uma pequena caixa na mão.

A caixa era de veludo azul escuro. Dentro havia um relógio, um relógio suíço, marca Rolex, modelo Submariner, comprado por Pelé em uma joalheria em São Paulo. Naquela mesma tarde. Pelé aproximou-se de Robson, em meio a 50 jogadores em festa, colocou a mão em seu ombro e falou quatro palavras na frente de todos: “Você é meu herdeiro.”

E entregou o relógio. Robson chorou por 15 minutos seguidos, sem parar, sem falar. Ele apenas continuou chorando enquanto olhava para o relógio. Ele o guardou em um cofre que sua mãe Marina o ajudou a comprar no dia seguinte e prometeu usá-lo apenas durante os momentos mais importantes de sua carreira. Aquele relógio desapareceria dois anos depois, em circunstâncias que só vieram à tona nos autos do processo em 2024.

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Mas ainda não. Lembre-se do relógio, lembre-se do seu primo. Nós chegaremos lá. Em 2003, Robson tinha 19 anos, [música] era o ídolo do Santos, marcava gols todo fim de semana, patrocínios, comerciais, uma camisa com o seu número sete, vendida por todo o reino do Brasil. E começou a ganhar dinheiro, muito dinheiro.

R$ 200.000 por mês, depois R$ 300.000, depois meio milhão. Robson comprou uma casa nova para Dona Marina, longe da favela, no bairro da Pompeia, em Santos. Uma casa com piscina, três quartos, [música] com garagem fechada. Dona Marina chorou ao entrar pela primeira vez e pediu a Robson apenas uma coisa: “Não se esqueça de quem você é.”

“Não se esqueça de quem você é.” Essa era a frase da mãe. Robson a abraçou, disse que nunca, jamais esqueceria São Vicente, que nunca esqueceria a favela, que nunca esqueceria as crianças descalças na rua de terra, e prometeu voltar todo domingo para almoçar com ela.

Ele voltou três vezes em dois anos porque a vida de Robson, a partir de 2003, não era mais sua. O Santos, os patrocinadores, os novos amigos que apareceram, as mulheres que apareceram, as festas que apareceram, Madrid, onde o Real Madrid começou a chamar, Barcelona, onde o Barça começou a chamar, Milão, onde o AC Milan começou a assistir.

A vida de Robson, aos 19 anos, deixou de ser a vida de Robson. E em seu bairro, em São Vicente, havia alguém que testemunhava toda aquela transformação de longe. Uma pessoa que sentia algo toda vez que via Robson na televisão. Meu primo, Edmilson Rocha. No final de 2003, Edmilson Rocha tinha 25 anos.

Ele continuava trabalhando como ajudante de mecânico, ganhando R$ 800 por mês. “Eu via Robson em outdoors pela cidade, via Robson em capas de revistas, via Robson dirigindo um carro que custava o que eu não ganharia em 30 anos de trabalho.” E começou a sentir algo no peito que expressaria mais tarde em cinco palavras durante a gravação da Polícia Civil: “Aquele garoto acha que é tudo isso.”

“Aquele garoto acha que é tudo isso.” Mas a frase tinha uma segunda parte, a parte que explica tudo o que veio depois: “Ele esqueceu de onde veio. Sua mãe o lembrará. Sua mãe o lembrará.” Cinco palavras, uma única frase, e um primo de segundo grau que começou a planejar. Em sua mente, durante todo o ano de 2004, como ele iria lembrar Robinho de onde ele tinha vindo? Nós chegaremos lá, mas antes de chegarmos ao dia 6 de novembro de 2004, temos que contar o que aconteceu em agosto daquele ano.

Porque em agosto de 2004, o Santos venceu seu segundo Campeonato Brasileiro consecutivo, e naquela noite Pelé apareceu no vestiário novamente, abraçou Robson e perguntou se ele ainda estava usando seu relógio. Robson respondeu que sim, que o usava durante os momentos mais importantes de sua carreira. E Pelé lhe disse, desta vez em particular, uma frase que Robson nunca esqueceu. Uma frase que só apareceu mais tarde em um livro de memórias publicado por um jornalista santista em 2021: “Você é melhor do que eu na sua idade, mas o problema não é o talento, o problema é o bairro.”

“Nunca se esqueça de que o bairro se lembra daqueles que foram embora. Nunca se esqueça de que o bairro se lembra daqueles que foram embora.” Pelé sabia. Pelé, que nasceu em uma favela em Três Corações, no interior de Minas Gerais, sabia exatamente o que acontecia quando um garoto saía da favela e ficava rico. Você sabia que o bairro nunca perdoa, você sabia que o sangue às vezes vira veneno? E ele disse a Robson naquela noite no vestiário da Vila Belmiro, sem que mais ninguém ouvisse.

Robson assentiu, agradeceu e esqueceu disso no dia seguinte até 6 de novembro de 2004. 6 de novembro de 2004, 9h30 da manhã, uma igreja em São Vicente, uma mulher saindo da missa de domingo, e um carro escuro esperando do outro lado da rua. Vamos lá. Dona Marina de Souza, 43 anos, deixou a igreja de São Sebastião às 9h32 da manhã de 6 de novembro de 2004, sozinha, como fazia todos os domingos.

Ela caminhou pela Rua Conselheiro Saraiva em direção ao ponto de ônibus. Estávamos a 70 metros do nosso destino. Antes de ela chegar, um Fiat branco parou ao lado dela. A porta de trás abriu. Dois homens saíram. Um agarrou seu braço, o outro tapou sua boca. Eles a colocaram no banco de trás. O carro começou a se mover.

Em 17 segundos, Dona Marina tinha desaparecido da rua. Robson estava em Madrid naquela manhã. Ele tinha viajado dois dias antes para uma reunião com dirigentes do Real Madrid que estavam interessados em contratá-lo. A ligação chegou às 11h, horário de Madrid. Uma ligação de seu irmão mais novo, Anderson. Uma conexão de 12 palavras: “Cara, você tem que voltar. Levaram a mãe duas horas atrás.”

Robson sentou-se no chão do hotel Aneluto. Ele não falou por 15 minutos, então pegou o primeiro voo disponível. Ele chegou a São Paulo em 7 de novembro. Às 15h, seis policiais antissequestro, dois advogados e um envelope o esperavam no aeroporto. Um envelope selado com seu nome escrito à mão, sem endereço de remetente. Dentro havia uma carta, uma carta datilografada de três páginas, sem assinatura, e uma fotografia. Uma foto de Dona Marina, vendada, sentada em uma cadeira com um jornal daquele mesmo dia em suas mãos. A foto provava que Dona Marina ainda estava viva. A carta exigia um resgate.

700.000. 700.000. Não R$ 50.000, como os jornais relataram anos depois. Não 100.000. 700.000 dólares americanos em dinheiro, em notas pequenas, a serem entregues em um local a ser determinado. Mas a carta pedia mais, muito mais. A carta pedia dois itens pessoais, dois itens específicos. O primeiro item é uma camisa do Santos autografada pela equipe campeã de 2002.

O segundo é um relógio. Um relógio suíço, um Rolex Submariner. O relógio que Pelé tinha dado a Robson no vestiário da Vila Belmiro na noite da vitória. Como eles sabiam que aquele relógio existia? Essa pergunta atormentou Robson por anos, porque aquele relógio só tinha sido visto por quatro pessoas em sua vida: Pelé, Robson, Dona Marina e o primo Edmilson Rocha. Uma vez, quando Robson o convidou para sua casa nova na Pompeia e mostrou o cofre. Robson pagou, pagou 700.000, entregou a camisa do Santos e o relógio de Pelé. Ele entregou tudo: 700.000 em dinheiro em uma mala, a camisa autografada pelos 22 jogadores da equipe campeã do Santos e o Rolex Submariner que Pelé tinha colocado em seu pulso anos antes.

Dona Marina foi libertada em 17 de dezembro de 2004, 41 dias depois, perto da Praia Grande. Ela estava viva, estava magra, tinha perdido 14 kg, tinha uma marca de corda no pulso, mas estava viva e abraçou Robson por 40 minutos sem parar de tremer. Três membros da quadrilha foram presos em 2007 após uma operação da Polícia Civil interceptar uma gravação reveladora.

A gravação continha uma conversa entre dois membros juniores da quadrilha e um homem que ainda não tinha sido identificado como participante do sequestro de Dona Marina. Um homem chamado Edmilson Rocha, primo de segundo grau de Robson, o ajudante de mecânico da Avenida Conselheiro Nébias. Na gravação, Edmilson dizia as frases que você já conhece: “Aquele garoto acha que é tudo isso. Ele esqueceu de onde veio. Sua mãe o lembrará.”

Mas ele também mencionou mais uma coisa. Uma coisa que mudou tudo o que se sabia até aquele ponto sobre o sequestro de Dona Marina. Edmilson falou sete palavras: “Eu disse a eles a que horas ela saía.” Eu disse a eles a que horas ela saía. Edmilson tinha vendido Dona Marina por 18 mil, uma fração do que a quadrilha cobrou, mas o suficiente para arruinar Robson para sempre. Mas Edmilson só ficou preso por seis meses, pagou fiança, foi solto e desapareceu de São Vicente. Ele nunca mais foi visto. De acordo com os documentos do tribunal, que surgiram em 2024, Robson nunca apresentou uma queixa formal contra seu primo.

Robson sabia. Robson perdoou Edmilson porque era família. E porque, no fundo, uma parte de Robson sentia que merecia por ter esquecido do bairro. Mas a quadrilha que realizou o sequestro, liderada por um homem identificado apenas pelo apelido de Marcinho, nunca foi totalmente capturada.

Marcinho permanece foragido e, em 2006, dois anos após a libertação de Dona Marina, uma segunda carta chegou à casa de Robson em Madrid, assinada pelo mesmo Marcinho, pedindo mais dinheiro e contendo uma frase brutal. Uma frase que Robson nunca contou à imprensa: “Nós sabemos quem é seu filho. Nós sabemos onde seu filho mora. Da próxima vez não será sua mãe.” Robson tinha um filho.

Robinho Júnior, que tinha um ano na época, foi pago por Robson sem informar ninguém, sem queixa, sem investigação. Ele pagou. Daquele dia em 2006 em diante, ele viveu cada dia de sua vida em constante medo pelo filho. O mesmo filho que, 20 anos depois, não o visitará na prisão.

Essa informação apareceu nos arquivos secretos da Polícia Federal em março de 2024, quando Robson foi preso e levado para a prisão de Tremembé. Mas nenhum veículo de notícias brasileiro teve coragem de publicá-la. Mas essa não é a pior parte, porque existe uma gravação, uma gravação que a polícia italiana fez 9 anos depois, de 47 segundos.

E nesses 47 segundos há uma frase, apenas uma frase [música] que a imprensa brasileira nunca teve permissão para publicar. Nós chegaremos lá. Mas tudo isso — o sequestro de Dona Marina, o primo traidor, os 700.000, a segunda carta ameaçando seu filho — não é a parte mais sombria da história de Robinho, porque existe uma gravação, uma gravação da polícia italiana de 23 de janeiro de 2013.

Uma gravação de 47 segundos que muda tudo o que você pensa saber sobre aquele homem, e há uma frase dentro dessa gravação que nenhum veículo de mídia brasileiro jamais teve permissão para publicar na íntegra. Chegaremos lá, mas antes da gravação precisamos entender o que aconteceu com Robson de Souza entre 2004 e 2013, porque durante esses 9 anos algo dentro dele estava se quebrando.

Gradualmente, sem que ninguém percebesse de fora. Após o sequestro de Dona Marina, Robson voltou a Madrid em janeiro de 2005. O Real Madrid o contratou por 25 milhões de euros. Robson chegou ao Santiago Bernabéu quando tinha 21 anos. Começou a morar sozinho em uma casa enorme em Moraleja, uma área ao norte de Madrid.

300 m², piscina coberta, uma Ferrari vermelha na garagem, e vazia, completamente vazia. Dona Marina ficou no Brasil. Mesmo que Robson pagasse para ela visitar a cada dois meses, Dona Marina não era mais a mesma desde seu cativeiro. Ela tinha pesadelos, não conseguia dormir sozinha. Andava pela casa às 3 da manhã verificando a porta.

E toda vez que Robson a via assim, sentia uma pontada de culpa no peito, uma pedra. Uma pedra que ele não conseguia remover. Imagine, 21 anos, herdeiro de Pelé, 25 milhões de euros, uma casa de três andares em Madrid e um medo constante de que alguém fosse atrás de seu filho a qualquer momento. Robson começou a tomar pílulas para dormir em fevereiro de 2005. Diazepam, prescrito por um médico particular do Real Madrid, 5 mg por noite, depois 10, depois 15.

[música] Em 6 meses, ele estava tomando 20 mg por dia e, mesmo assim, não conseguia dormir sem deixar seu celular aberto ao lado da cabeça, caso chegasse uma ligação do Brasil. Ele começou a sair à noite. Pasa, Joylava Capital. Quando saía com seus companheiros de equipe, Robson era o que mais bebia, ficava até mais tarde e voltava para casa com estranhos.

Aquele garoto que costumava brincar descalço nas ruas de terra de São Vicente estava agora gastando 8.000 euros em uma única noite em uma mesa VIP, em champanhe e cristal, em cocaína, que um amigo argentino arranjava para ele no bairro de Salamanca, cocaína. Essa é a palavra que a imprensa brasileira nunca disse em voz alta sobre Robinho, mas os prontuários médicos do Real Madrid, vazados em 2018 para uma publicação esportiva espanhola, mostraram três testes internos com vestígios de cocaína entre 2005 e 2008.

Os testes internos não foram publicados; eram apenas para a gestão esportiva do clube. E o departamento esportivo estava fazendo a mesma coisa que o SBT tinha feito com Maguila. Eles ficaram em silêncio. Enquanto Robson estivesse marcando gols, eles ficariam calados. Mas Robson não estava marcando gols como esperavam.

E a partir de 2007, tudo começou a mudar. Em 2007, Robson jogou a Copa América com a seleção brasileira. Aquela Copa América na Venezuela foi o melhor desempenho individual de sua carreira. O Brasil conquistou o título. Robson foi escolhido como o melhor jogador do torneio e a FIFA o indicou para a Bola de Ouro.

Ele terminou em 18º, mas no Brasil era tratado como o herdeiro confirmado de Pelé. O próprio Pelé, em uma entrevista à Globo em agosto de 2007, falou sete palavras: “Eu vou dar a ele minha camisa 10. Vou dar tudo.” “Eu vou dar a ele minha camisa 10. Vou dar tudo.” Mas naquela mesma noite, Robson estava em uma boate em Ipanema, Rio de Janeiro, com três amigos, bebendo sem parar. Às 4 da manhã, houve o primeiro episódio público de agressão contra uma mulher, uma garçonete. Ele apertou o braço dela com força e gritou. A garçonete o denunciou aos seguranças. Os seguranças chamaram a polícia. A polícia chegou e, quando Robson viu os oficiais, ele sorriu e perguntou se eles queriam tirar uma foto. Não houve queixa formal.

A garçonete retirou a queixa no dia seguinte. Ele recebeu um envelope contendo R$ 10.000. E daquele dia em diante, seu assessor, Marcelo Coelho, fez a mesma coisa em outras seis ocasiões semelhantes entre 2007 e 2013. Seis episódios, seis envelopes, seis queixas retiradas, todas no Brasil, todas envolvendo dinheiro.

A que ele não conseguiu se livrar foi a de Milão, porque a de Milão era algo completamente diferente, mas antes de Milão, você tem que passar por Manchester, porque em 2008 algo aconteceu que Robson nunca tinha experimentado antes, e isso terminou de quebrar o pouco que restava dentro dele. Em setembro de 2008, o Manchester City comprou Robinho do Real Madrid por 43 milhões de libras.

A transferência mais cara da história da Premier League na época, 200.000 libras por semana. Ele aceitou porque o Real Madrid o colocou à venda após suspeitar de seu desempenho e conduta. Mas Robson não queria Manchester, ele queria Barcelona. E naquele verão, em uma sala privada no aeroporto de Madrid, sem testemunhas, sem câmeras, ele falou cinco palavras para o empresário: “Ah, cidade cinzenta, não suporto cidade cinzenta, não suporto.”

Manchester, chuva, frio, inglês que ele não falava. Robson se isolou, começou a treinar sozinho, começou a beber sozinho, começou a ligar para Dona Marina todas as noites, e Dona Marina perguntava a mesma coisa todas as noites [música]: “Você está bem, filho? Está se cuidando?” Robson sempre respondia a mesma coisa: “Estou bem, mãe, estou bem.” Ele mentia. Todas as noites, em dezembro de 2009, Robson teve seu primeiro episódio depressivo grave. Ele ligou para seu empresário às 4 da manhã, dizendo que estava pensando em coisas que não deveria estar pensando. O empresário conseguiu um psiquiatra particular em Londres, três sessões por semana, antidepressivos, mais diazepam, mais álcool, mais mulheres desconhecidas.

A espiral descendente continuou. E um dia, em um clube chamado Panacea, Robson viu três mulheres albanesas entrarem. Uma delas se aproximou e disse em um português quebrado: “Você é famoso, né? Você é jogador.” Robson assentiu, comprou três taças de champanhe, começou a conversar e, no final da noite, as três mulheres foram embora com Robson e dois amigos brasileiros em direção ao seu apartamento.

Nada aconteceu naquela noite, pelo menos nada que levasse a uma denúncia. Mas algo mudou na mente de Robson naquela manhã. [música] Um mecanismo, uma rotina, uma ideia que ele repetiria com variações pelos próximos 4 anos. Mulheres estrangeiras, mulheres jovens, mulheres que apareciam perto dele, todas envolvidas. Em agosto de 2010, Robinho foi emprestado ao AC Milan.

Ele passou duas temporadas por empréstimo, depois foi comprado em definitivo em 2012. E Milão devolveu algo a ele: o calor, a comida, a língua familiar. Por um momento, Robinho acreditou que ia recuperar a felicidade que tinha perdido. Mas Milão também devolveu algo mais: as boates. 22 de janeiro de 2013, apenas mais uma noite, apenas mais uma festa, ou um Old Fashion Café.

Via Camoense, número 7, centro da cidade de Milão. Uma albanesa de 22 anos comemorando seu aniversário com duas amigas e um grupo de seis homens brasileiros liderados por Robinho na mesa VIP ao lado. Vamos lá. Old Fashion Café, uma das boates mais antigas de Milão, frequentada por jogadores do AC Milan e da Inter.

Naquela noite, de acordo com os registros de segurança, Robinho chegou às 2h10 da manhã, acompanhado por cinco amigos brasileiros, todos do mesmo bairro em São Vicente, todos amigos de infância, todos convidados por Robinho para morar em Milão com tudo [música] pago. Casa alugada, carro alugado, saída paga, cada despesa coberta por Robinho.

Aqueles cinco amigos não trabalhavam; apenas acompanhavam Robinho. Eram sua corte, o séquito, as testemunhas permanentes, a boate estava lotada, havia cerca de 400 pessoas. Música eletrônica, luz violeta. Na mesa VIP número 12, ao lado da mesa de Robinho, havia três mulheres comemorando um aniversário. A aniversariante, mais tarde identificada nos autos apenas pelas iniciais Eliesse para proteger sua identidade, era uma albanesa de 22 anos, estudante de moda em Milão, que havia chegado à Itália aos 18 anos com um visto de estudante.

Sua família morava em Tirana; ela estudava de manhã e trabalhava como garçonete à tarde para se sustentar. Naquela noite, ela completava 23 anos. Robinho e seus amigos convidaram as três mulheres para sua mesa às 2h47 da manhã. As mulheres concordaram. Robinho pediu uma garrafa de Crystal e serviu taça após taça.

A aniversariante, junto com ele, bebeu cerca de seis taças em 1 hora e 25 minutos. Às 4h12 da manhã, as câmeras de segurança da boate registraram-na andando com dificuldade, tropeçando e se apoiando na mesa. Naquele momento, de acordo com exames médicos subsequentes, ela já estava em um estado de severa incapacitação.

As câmeras seguintes mostram-na sendo levada por Robinho e dois de seus amigos para a sala VIP fechada nos fundos da boate. Eram 4h19 da manhã. Ela já não conseguia andar sem ajuda. Os seis homens entraram, fecharam a porta e saíram 93 minutos depois. Ela foi encontrada por uma garçonete às 6h42 da manhã na mesma sala VIP, sozinha, semiconsciente, sem lembrança completa do que tinha acontecido.

LS foi ao hospital naquela mesma manhã. Exames médicos confirmaram estupro. A polícia italiana abriu uma investigação imediata, e um mês depois, em fevereiro de 2013, a promotoria de Milão identificou os seis brasileiros através das câmeras de segurança da boate e dos registros da mesa VIP que Robinho tinha pago com seu cartão de crédito. Vamos lá.

Três meses após aquela noite, em abril de 2013, a polícia italiana, em uma investigação de rotina sobre tráfico de cocaína em Milão, colocou uma escuta telefônica em um dos amigos de Robinho daquela noite. Um homem chamado Ricardo Falco. A investigação de cocaína não estava levando a lugar nenhum, mas as gravações capturaram involuntariamente todas as conversas de Ricardo Falco com Robinho durante fevereiro, março e abril de 2013.

E nessas gravações, 8 meses antes de a vítima ir à polícia denunciar, já havia referências claras ao que tinha acontecido naquela noite. A polícia italiana gravou 437 horas de conversa. Eles transcreveram e catalogaram tudo. E em março de 2014, quando ela denunciou formalmente o crime, a promotoria italiana já tinha as gravações em mãos.

Conversas entre Robinho e seus amigos, falando, rindo e comentando sobre o que tinham feito. Sem que eles soubessem, a polícia italiana estava ouvindo. Existe uma gravação específica. A gravação mais curta, de 47 segundos, foi gravada em 25 de janeiro de 2013. Dois dias após aquela noite, 25 de janeiro de 2013, às 19h19, Robinho liga para Ricardo Falco de sua casa em Milão.

A conversa dura 47 segundos. Começa com Falco perguntando sobre a vítima. A frase exata de Falco em português do Brasil foi: “Irmão, aquela menina está criando problema?” E Robinho respondeu com uma risada. Ele soltou uma risada longa, de oito segundos, e então falou as sete palavras que selariam seu destino — palavras que apareceram em jornais de todo o mundo:

“Eu nem estou pensando nisso. Eu nem estou pensando nisso.” Essas sete palavras foram as que a promotoria italiana usou como prova principal, as que o tribunal de Milão citou em sua sentença e as que a imprensa brasileira reproduziu por anos. Mas essas sete palavras não são tudo, porque logo depois, dos segundos 37 a 47, há mais 14 palavras.

14 palavras que nenhum veículo de notícias brasileiro se atreveu a publicar na íntegra. 14 palavras que mudam tudo. A frase exata em português do Brasil foi: “Estou rindo porque, no fundo, sei que nada vai me acontecer. Eu sou intocável. Estou rindo porque, no fundo, sei que nada vai me acontecer. Eu sou intocável.” Essa é a frase.

Essa é a frase que destruiu Robinho quando ele apareceu diante dos juízes italianos em 2017. Porque essa frase, em termos legais, provou algo que o tribunal italiano considerou essencial. Ele demonstrou consciência, total consciência, consciência da vítima, consciência das consequências e arrogância.

Uma arrogância que o tribunal classificou na sentença escrita como um agravante na conduta. Mas a sentença tinha um detalhe adicional, um detalhe que só apareceu nos registros secretos da promotoria italiana, que foram traduzidos para o português do Brasil em 2024, durante o processo de homologação da sentença no Brasil.

A frase completa, transcrita literalmente do áudio original, mencionava mais uma coisa após a palavra “intocável”. Ele falou duas palavras finais, duas palavras que conectam toda a vida de Robinho desde 2004 até aquela manhã em Milão. Duas palavras que a promotoria italiana destacou no relatório: “Tipo mãe. Tipo mãe.”

“Eu sou intocável. Tipo mãe.” Naquele telefonema às 19h19 de 25 de janeiro de 2013, após cometer um crime grave contra uma mulher duas noites antes, Robinho disse ao amigo que era intocável, como sua mãe, Marina, a mulher que tinha sido sequestrada em 2004 e que ele tinha conseguido recuperar com dinheiro, uma camisa barata assinada e o relógio de Pelé.

Marina, que em 2006 tinha sido ameaçada novamente através de uma segunda carta, que também mencionava o nome de seu filho de um ano. Robinho acreditava que era intocável, como sua mãe. Ele pensou que, assim como tinha conseguido protegê-la com dinheiro, ele também poderia se proteger com dinheiro.

Ele pensou que, assim como tinha subornado seis acusadores no Brasil, ele também poderia subornar esta. Ele pensou que, como tinha vivido sua vida inteira acreditando que a fama e o dinheiro eram um escudo, eles seriam em Milão também. Mas Milão não era o Brasil. A polícia italiana não era o assessor Marcelo Coelho. A vítima, LS, não era uma garçonete de Ipanema.

E aquela chamada de 47 segundos, gravada sem o conhecimento de Robinho, foi o momento exato em que seu destino foi selado. Quatro anos depois, em novembro de 2017, o tribunal de Milão condenou Robinho a nove anos de prisão por estupro coletivo. Cinco anos depois, em janeiro de 2022, o Tribunal de Cassação italiano confirmou a sentença. Dois anos depois, em março de 2024, Robinho entrou na Penitenciária 2 de Tremembé, no interior de São Paulo.

E lá dentro, em uma cela comum com outros 11 detentos, Robson de Souza, o herdeiro designado de Pelé, o melhor jogador da Copa América de 2007, o garoto descalço de São Vicente começou a cumprir uma sentença que só termina em 2033. Mas essa nem é a parte mais sombria, porque existe alguém que não o visitou, alguém que a imprensa brasileira nunca mencionou.

Alguém lhe enviou uma carta apenas uma vez, em julho de 2024, com três frases e uma pergunta. Uma pergunta que Robinho não conseguiu responder. Vamos lá. Mas há mais. Há algo que só veio à tona em julho de 2024, quatro meses depois que Robinho entrou em Tremembé. Uma carta, uma carta de três frases escrita à mão em uma folha de caderno escolar e assinada por seu filho, Robinho Júnior.

O mesmo filho que, em 2006, com um ano de idade, tinha sido ameaçado na segunda carta do sequestrador Marcinho. O mesmo filho que hoje, aos 19 anos, joga como atacante pelo Santos Futebol Clube, vestindo a camisa número sete, o número do pai. E desde o dia em que seu pai foi para a cadeia, ele não pisou em Tremembé nem uma vez, mas enviou uma carta, apenas uma.

E a carta termina com uma pergunta, uma pergunta que Robinho não conseguiu responder até hoje. Vamos lá. Robinho Júnior nasceu em 12 de fevereiro de 2005, em Madrid, Espanha, três meses depois que sua mãe, Marina, foi libertada do cativeiro. Três meses depois que Robinho pagou 700.000, entregou a camisa do Santos e o relógio de Pelé.

A mãe era uma namorada que Robinho tinha na época chamada Vivian Guglielmetti. No dia em que Robinho Júnior nasceu, seu pai estava em um treino do Real Madrid. Ela chegou à clínica 3 horas após dar à luz, pegou o bebê, olhou para ele por 10 minutos seguidos e sussurrou cinco palavras em seu ouvido: “Você vai ser melhor do que eu.”

“Você vai ser melhor do que eu.” Essa foi a primeira promessa, a promessa fundamental entre pai e filho. Uma promessa que Robinho repetiu pelos próximos 14 anos, toda vez que via o filho. E Robinho Júnior, quando já tinha 6 anos, começou a repetir a mesma coisa durante o recreio da escola. Robinho Júnior sempre respondia da mesma forma: “Eu vou ser melhor do que ele, eu vou ser melhor do que ele.” Aos 8 anos, Robinho Júnior entrou nas categorias de base do AC Milan. Estudava em uma escola bilíngue, falava italiano e português, e idolatrava o pai com uma devoção que só um filho único pode ter. Até 23 de janeiro de 2013. Robinho Júnior tinha 7 anos quando aquela noite aconteceu no Old Fashion Café.

Naquela noite, ele dormia em sua cama em sua casa nos arredores de Milão, de pijama, com um ursinho de pelúcia ao lado do travesseiro. Ele não sabia de nada. Por um ano inteiro, ninguém lhe contou. A denúncia foi feita em março de 2014. Robinho Júnior já tinha 9 anos. Naquela manhã, Vivian pegou o menino na escola mais cedo, colocou-o no carro, dirigiu até a casa de uma amiga e, chorando, explicou o que o pai tinha feito.

Robinho Júnior não falou por 40 dias, não comeu, não dormiu, e aos 9 anos, em uma casa emprestada nos subúrbios de Milão, começou a entender algo que nenhuma criança deveria entender: que seu pai, o homem que lhe tinha dito “Você vai ser melhor do que eu”, era o mesmo homem que tinha ferido uma mulher.

Onze anos depois, em março de 2024, Robinho Júnior tinha 19 anos e assistia ao pai na televisão brasileira entrando na Penitenciária 2 de Tremembé. Em março de 2024, Robinho Júnior, que estava algemado, já jogava nas categorias de base do Santos Futebol Clube. Ele tinha voltado ao Brasil com Vivian em 2018. A família se separou.

Vivian e o menino mudaram-se para São Paulo. Robinho ficou em Santos, morando com a esposa Marina. E pelos 5 anos seguintes, pai e filho só se viam em aniversários e no Natal. Robinho tentou se aproximar. Robinho Júnior se afastou. Robinho tentou ligar. Robinho Júnior desligava. Robinho tentou escrever, mas Robinho Júnior não respondia.

[música] até 21 de março de 2024, quando Robinho foi preso e levado para Tremembé. Daquele dia em diante, Robinho Júnior cortou toda a comunicação, bloqueou o número do pai, bloqueou o número da avó e não compareceu ao julgamento, não se entregou voluntariamente e não foi à cadeia. Em julho de 2024, Robinho Júnior fez sua estreia profissional pelo Santos.

Uma partida contra o Palmeiras na Vila Belmiro. Ele entrou aos 67 minutos e saiu aos 82. Seu pai assistiu àquela estreia em uma televisão comum dentro da prisão de Tremembé, na sala comum do pavilhão, com outros 11 detentos assistindo ao mesmo jogo. Robinho não chorou na frente deles, levantou-se no final do jogo, foi para sua cela, deitou-se na cama e cobriu o rosto com o lençol por 3 horas, sem fazer um ruído.

Naquela mesma semana, sem saber nada sobre o pai, Robinho Júnior sentou-se em seu quarto em São Paulo, pegou uma folha de caderno escolar, pegou uma caneta azul e escreveu três frases. Uma carta, apenas uma para o pai. Entregue em Tremembé pelo advogado de Vivian em 19 de julho de 2024, às 15h, a carta continha três frases.

Apenas três frases, escritas à mão, sem saudação, sem assinatura com nome, apenas duas letras no final, RJ. Essas foram as três frases. Primeira frase: “Vi seu rosto na televisão quando você entrou.” Segunda frase: “A mãe me disse que você vai ficar lá até eu ter 28 e 8 anos.” Terceira frase: “Por que você me fez aquela promessa se sabia que não ia conseguir cumprir?”

“Por que você me fez aquela promessa se sabia que não ia conseguir cumprir?” A promessa, a promessa fundamental, é que você será melhor do que eu. Aquela frase que Robinho sussurrou para o recém-nascido na clínica na Rua General Oraá. Aquela frase que tinha sido repetida por 14 anos. Aquela frase que Robinho Júnior tinha transformado em seu mantra de infância: “Eu vou ser melhor do que ele.” Mas agora aquela frase tinha um novo significado devastador. Robinho Júnior, aos 19 anos, naquela carta de três frases, estava dizendo algo brutal ao pai.

Ele estava dizendo que a promessa de ser melhor do que seu pai já não era uma promessa de futebol, era uma promessa de vida, uma promessa de não destruir ninguém, de não terminar em uma cela comum, de não ser como seu pai. Ele estava dizendo mais. Ele estava dizendo que seu pai já sabia quando fez aquela promessa para ele beber.

Ele sabia que ele, o pai de Robinho, não conseguiria cumpri-la. Ele sabia que a vida noturna que ele levava desde 2005 ia levá-lo a algo assim. Ele sabia que as gravações interceptadas, [música], os envelopes de dinheiro, as queixas retiradas não poderiam continuar para sempre.

Você sabia que a frase “Eu sou intocável”, tipo “mãe”, era uma mentira que só se sustentava até um dia, em algum lugar do mundo, alguém que ele não pudesse comprar dissesse basta? Nas suas três frases, Robinho Júnior estava dizendo o seguinte para seu pai: “Você sabia, e mesmo assim você me prometeu que eu seria melhor do que você, sabendo que você mesmo não poderia ser quem dizia ser.” “É isso que me destrói, não o crime, não a mentira. É isso que destrói o filho, não o crime do pai. A mentira do pai.” A carta chegou a Robinho em Tremembé em 19 de julho de 2024. Robinho leu três vezes, depois escondeu-a embaixo do colchão e começou a escrever uma resposta. Começou nove vezes, nove rascunhos.

Cada um mais curto que o anterior, cada um mais impotente que o anterior. Finalmente, no nono rascunho, Robinho rasgou o papel e nunca enviou uma resposta. Porque a pergunta não tinha resposta. Robinho não podia explicar por que ele tinha feito aquela promessa ao filho em 2005 se ele já sabia que era uma mentira. Porque a verdade é que Robinho não sabia naquele momento. Ele acreditou.

Ele acreditou que conseguiria. Ele acreditou que o dinheiro, a fama, superar o sequestro e perdoar a traição do primo eram coisas que ele poderia deixar para trás. Mas Pelé [música] já tinha avisado naquela noite de 2004 no vestiário da Vila Belmiro: “Nunca se esqueça de que o bairro se lembra daqueles que foram embora.” E Robinho esqueceu.

E o bairro lembrou. E tudo o que veio depois foi uma consequência desse esquecimento. Desde uma mãe sequestrada, até uma segunda carta ameaçando um bebê de um ano, até uma mulher devastada em uma boate de Milão, até um filho que escreve três frases e uma pergunta sem resposta possível. Mas falta o clímax, falta a última coisa que aconteceu. Vamos lá.

17 de novembro de 2025. Robinho foi transferido da Penitenciária 2 de Tremembé para o Centro de Reintegração de Limeira, também no interior de São Paulo, uma unidade menor e com mais privacidade. A transferência foi solicitada pela defesa após o lançamento de uma série do Prime Video que retratava os famosos detentos de Tremembé.

Em Limeira, Robinho divide a cela com outros três detentos. Ele tem acesso à televisão aberta, ele estuda, ele faz cursos à distância. De acordo com os registros, ele leu 18 livros desde março de 2024. Cada livro reduz sua sentença em 4 dias. Cada curso concluído concede uma redução de 20 dias em sua pena.

Sua defesa estima que ele poderá solicitar a progressão para o regime semiaberto em algum momento de 2027. Enquanto isso, seu filho, Robinho Júnior, continua jogando pelo Santos. Galvão Bueno, em agosto de 2025, repetiu para ele ao vivo em uma transmissão da Globo a mesma frase que tinha dito sobre seu pai em 1999: “Acabei de ver o herdeiro de Pelé.”

Robinho Júnior, na entrevista coletiva após o jogo, quando mencionaram aquela frase, não sorriu, permaneceu em silêncio por 6 segundos e respondeu com três palavras: “Eu sou eu.” “Eu sou eu.” Essa é a verdade final da história de Robinho. A verdade que nenhum veículo de notícias brasileiro contou na íntegra. Não foi a polícia italiana que destruiu Robinho, não foi a vítima, não foi a imprensa, não foi o sistema judiciário, não foi o primo traidor, nem o sequestrador Marcinho, nem a segunda carta de 2006 ameaçando seu filho de um ano. Robinho foi destruído por si mesmo, por sua própria mão, seu próprio telefone, sua própria risada de 47 segundos gravada por um policial que ele não sabia que estava gravando. A própria crença de que ele era intocável. Mentir para um filho recém-nascido em 2005. Sua própria incapacidade de ouvir o que Pelé tinha dito no vestiário da Vila Belmiro em 2004.

Existem milhões de homens assim neste momento. Homens que vieram da favela, do bairro, da pobreza, com todo o talento do mundo, com todo o amor de uma mãe que trabalhava 16 horas por dia para que eles pudessem ter uma vida melhor, e que esqueceram de onde vieram, que esqueceram que o bairro se lembra deles, que esqueceram que o dinheiro não pode comprar uma alma, que esqueceram que as promessas que fizeram aos seus filhos quando eram bebês precisam ser cumpridas em cada decisão que tomam depois.

Esses homens estão agora em celas comuns, hotéis de beira de estrada vazios ou hospitais psiquiátricos. E todos eles compartilham apenas uma coisa. Todos em algum momento fizeram uma promessa a alguém que os amava, e todos quebraram essa promessa, pensando, como Robinho, que eram intocáveis. Mas ninguém é intocável.

Nem Garrincha, nem Adriano, nem Ronaldinho, nem Maradona, nem Maguila, nem Robinho, nem você, nem eu. Porque a única coisa que o dinheiro não pode comprar, a única coisa, é o olhar no rosto de uma criança quando ela descobre que o pai mentiu para ela. E esse olhar, uma vez que aparece, não vem nem com correntes, nem com perdão, nem com o tempo.

Esse olhar fica com você até o seu último dia. Se esta história fez você pensar em alguém, ligue para essa pessoa hoje. Não amanhã, hoje, pelo seu filho, pela sua filha, pelo seu pai, pela sua mãe, pela pessoa que um dia olhou para você com devoção e a quem você prometeu algo que não está cumprindo. Ligue, peça perdão, peça tempo.

Não prometa nada que você não possa cumprir. Porque a mentira de Robinho para seu filho em 2005 não foi uma mentira deliberada, foi uma mentira nascida do orgulho, da arrogância e da crença de que ele era intocável. E essa mesma mentira, em outras formas, em outras escalas, é o que milhões de homens dizem todos os dias para as pessoas que eles mais amam. Se você conhece um homem que está prestes a fazer uma promessa que não poderá cumprir, diga a ele hoje para parar, respirar, olhar seu filho nos olhos antes de falar, porque promessas, uma vez feitas, colam, e crianças, as crianças sempre se lembram.

Robinho Júnior se lembra, é por isso que ele não foi para a cadeia, é por isso que escreveu três frases, é por isso que terminou a carta com duas letras: RJ, não com a palavra filho, não com a palavra pai, com duas letras, como se já não houvesse vínculo, como se já não tivessem um sobrenome compartilhado.

É como se Robinho Júnior, aos 19 anos, tivesse decidido ser apenas RJ (Rio de Janeiro) e nunca mais ser filho de seu pai. Se esta história tocou você, inscreva-se no canal, porque a próxima doerá ainda mais. Um piloto brasileiro que prometeu, antes de entrar em uma Williams em 1994, que venceria aquela corrida pelo país.

Ele prometeu à irmã duas noites antes e cumpriu sua promessa. Mas não da maneira que ninguém esperava. Seu nome era Ayrton Senna. E a verdade sobre Tamburello nunca foi contada a você. Aleluia.