
O TERRÍVEL CASO DE BRASÍLIA: FREIRA descobre CASO SECRETO de PADRE com DISCÍPULAS e paga caro.
Brasília acorda cedo. Antes que o sol rompa o cerrado, os funcionários públicos já fazem fila para o metrô. Os vendedores abrem suas bancas na feira da Asa Sul, e os sinos das igrejas começam a chamar os fiéis. É uma cidade de rotinas rígidas, hierarquias respeitadas e aparências mantidas. Foi nesta cidade que a Irmã Clara Mendonça passou os últimos 3 anos de sua vida.
Clara tinha 23 anos. Ela era natural de Montes Claros, no norte de Minas Gerais, filha de um ajudante de pedreiro e de uma costureira. Desde a infância, frequentava a missa todos os domingos com sua mãe. Ela cresceu acreditando que a igreja era um lugar seguro, que os padres eram homens de Deus, que servir era um chamado, não ingenuidade.
Aos 19 anos, ingressou na Congregação das Servas do Espírito, uma ordem religiosa sediada no bairro da Asa Sul, em Brasília. O convento localizava-se numa rua tranquila, com árvores altas e portões de ferro. Por fora, parecia um lugar de paz. Por dentro, tinha as mesmas tensões de qualquer comunidade fechada.
Ciúmes ocultos, disputas por espaço, silêncios pesados. Clara não era do tipo que criava conflitos. Era silenciosa, diligente e cumpria suas obrigações sem reclamar. Cuidava das crianças na catequese aos sábados de manhã, ajudava na cozinha em dias festivos e estudava teologia nas tardes de semana.
Quem a conhecia dizia que ela tinha um jeito de ouvir que fazia as pessoas se sentirem menos sozinhas. A Madre Superiora, Irmã Gorette, costumava dizer:
“Clara é a mais dedicada das noviças.”
Não era um elogio vazio; era uma observação que, mais tarde, ganharia um peso diferente. O convento mantinha uma parceria de longa data com a paróquia São Benedito, situada a poucos quarteirões de distância.
Era através dessa paróquia que as freiras realizavam projetos sociais no bairro. Distribuição de cestas básicas, assistência a idosos, reforço escolar para crianças de famílias de baixa renda. O elo entre o convento e a paróquia era o Padre Renato Figueiredo. O Padre Renato tinha 47 anos, era alto, falava bem e tinha aquele tipo de sorriso que faz as pessoas se sentirem notadas.
Ele nasceu em Goiânia, estudou no seminário regional de Brasília e foi ordenado aos 28 anos. Em quase duas décadas de ministério, construiu uma reputação sólida. Era convidado para dar palestras em outros estados. Tinha um canal no YouTube com mais de 80.000 inscritos. Suas missas estavam sempre lotadas. Ele também coordenava um grupo de formação espiritual voltado para jovens adultos.
O grupo reunia-se todas as quintas-feiras à noite no salão paroquial. Tinha cerca de 30 membros, a maioria mulheres entre 20 e 30 anos. Chamavam o grupo de “Filhas da Luz”. O Padre Renato referia-se às participantes como suas “discípulas”, usando um tom que poderia soar afetuoso ou possessivo, dependendo de quem ouvia.
Clara participava das reuniões do grupo como representante do convento. Era ela quem fazia a ponte entre as freiras e as atividades da paróquia. Durante as reuniões, costumava ficar ao fundo, anotando compromissos em um pequeno caderno de capa azul. Foi durante essas reuniões que ela começou a registrar certas coisas.
Ela notou que o Padre Renato sempre ficava depois que o grupo se dispersava, engajando-se em conversas particulares com duas participantes específicas: Natália Drumon, 26 anos, filha de um funcionário do Senado, e Débora Moura, 24 anos, estudante de direito na UNIB. As duas eram frequentadoras assíduas, sentavam-se sempre na primeira fila e tinham uma familiaridade diferente com o padre em relação aos demais.
Clara não disse nada a princípio, deu-lhes o benefício da dúvida. Pensou que talvez fossem casos que exigissem uma orientação espiritual mais intensa, que talvez houvesse uma explicação simples, mas a inquietude cresceu lentamente, como rachaduras numa parede. Numa tarde de março de 2023, ela voltou ao convento mais cedo do que o esperado após um compromisso cancelado.
Ao caminhar pelo corredor que levava ao refeitório, ouviu vozes vindas do escritório particular da Madre Superiora, que estava fora em um retiro em Goiás. A porta estava entreaberta. Uma das vozes era a do Padre Renato. Clara parou. Não por mera curiosidade, parou porque também reconheceu a voz de Natália.
E porque o tom daquela conversa não era de oração, ela se afastou silenciosamente. Não disse nada a ninguém naquele dia. Foi para o seu quarto, sentou-se na beira da cama e ficou ali por muito tempo, olhando pela janela. O sol se punha sobre o Cerrado. Os ipês amarelos no quintal balançavam suavemente com o vento.
Naquela noite, Clara escreveu algumas linhas em seu diário azul. Não era bem um diário, era mais um hábito que ela tinha de registrar o que a incomodava para organizar os pensamentos. O que ela escreveu naquelas páginas seria encontrado semanas depois e mudaria o rumo de tudo. Ela ainda não sabia o que fazer com o que havia descoberto, mas sabia que não poderia fingir que não tinha visto nada.
Esse era o tipo de mulher que ela era, honesta mesmo quando a honestidade custava caro. E naquele convento, no coração de Brasília, a honestidade estava prestes a custar tudo. Em Brasília, março tem um calor seco que gruda na pele. As noites tornavam-se mais quentes junto com os dias e o ar dentro dos quartos do convento ficava pesado, mesmo com as janelas abertas.
Clara vinha dormindo mal há semanas. Ela virava para o lado, olhava para o teto e fechava os olhos novamente. Na noite de 14 de março de 2023, ela acordou pouco depois das duas da manhã com sede. Levantou-se devagar para não acordar a irmã Patrícia, com quem dividia o quarto. Calçou os chinelos, pegou o diário azul que habitualmente guardava debaixo do travesseiro e caminhou pelo corredor escuro em direção à cozinha.
O convento à noite era um lugar diferente. Os longos corredores perdiam o agito do dia. As luzes de emergência no rodapé lançavam sombras longas no chão de granito. Clara conhecia cada passo daquele caminho de cor. Ao se aproximar da cozinha, notou que a luz estava acesa. Parou. Eram quase duas e meia da manhã.
Nenhuma freira tinha motivo para estar acordada àquela hora. Ela ficou imóvel por um momento, ouvindo. Havia barulho, vozes baixas, alguém se movimentando. Ela foi até a porta e olhou pela fresta. O que viu naquele instante ficaria gravado em sua memória para sempre. O Padre Renato estava no convento àquela hora da noite. E não estava sozinho.
Natália e Débora estavam com ele. A cena que Clara encontrou não deixava margem para interpretações. Não havia outra forma de explicar aquilo. Não havia benefício da dúvida que pudesse superar o que estava bem diante de seus olhos. Ela recuou, com o coração disparado. A agenda caiu de sua mão e bateu no chão com um baque seco.
O barulho foi suficiente. O Padre Renato virou a cabeça. Por um segundo, seus olhos encontraram os dela através da fresta. Clara virou-se e correu. Ouviu passos atrás de si no corredor. Ouviu a voz dele chamando seu nome em um sussurro tenso, quase um comando. Ela não parou. Alcançou o corredor que dava para o pátio interno e empurrou a porta de saída.
O ar quente da noite bateu em seu rosto. O pátio tinha um pequeno jardim, um banco de concreto e uma mangueira antiga no centro. Clara foi até o banco e sentou-se. Estava tremendo. Poucos minutos depois, o Padre Renato apareceu pela mesma porta. Veio devagar, sem pressa, com aquele jeito controlado que tinha em tudo.
Ele sentou-se no banco ao lado dela sem pedir licença e permaneceu em silêncio por um momento, como se escolhesse as palavras com cuidado. Ele disse:
“Você entendeu mal. As coisas não são o que parecem, há uma explicação.”
Usou um tom baixo, quase pastoral, como se estivesse conduzindo uma sessão de aconselhamento. Clara não respondeu. Estava olhando para o chão. Ele mudou o tom. Disse que ela era jovem, que ainda tinha muito a aprender sobre como certas coisas funcionavam dentro da igreja. Ele continuou:
“Falar sobre isso seria um erro. Você vai se arrepender. Ninguém acreditaria em uma noviça contra um padre com 20 anos de ministério. A Congregação das Servas do Espírito depende da parceria com a paróquia para sobreviver, e a Madre Gorette ficaria muito decepcionada se soubesse que uma de suas freiras causou um escândalo infundado.”
Cada frase era um tipo diferente de pressão. Clara reconheceu a mecânica daquilo. Era o mesmo padrão que já havia estudado: isolamento, descrédito, ameaça velada. Quando ele terminou de falar, ela levantou os olhos e disse apenas uma coisa:
“Eu deixei cair a agenda no corredor.”
O padre olhou para ela, confuso. Ela completou:
“O diário tem meu nome escrito na capa. Qualquer um que passar pelo corredor de manhã vai encontrá-lo.”
Foi a primeira vez que ela viu o Padre Renato perder o controle de sua expressão facial. Ele levantou-se e voltou para dentro. Clara permaneceu sozinha no pátio por mais alguns minutos.
Depois, voltou para o quarto, deitou-se na cama e manteve os olhos abertos até o amanhecer, ouvindo o silêncio do convento ao seu redor. Ela ainda não sabia o que aquela noite havia colocado em movimento. Não sabia que o diário havia sido recolhido do chão antes que ela voltasse ao corredor. Não sabia que, enquanto tentava dormir, uma decisão estava sendo tomada por outras pessoas dentro daquelas paredes.
O que ela sabia era simples. Tinha visto o que tinha visto, e não poderia viver como se não tivesse visto. Três dias depois, o corpo de Clara Mendonça foi encontrado no poço de água da chuva nos fundos do pátio do convento. A Polícia Civil do Distrito Federal chegou ao local às 6h20 da manhã do dia 17 de março de 2023. A Irmã Gorette havia ligado para o 190 logo após o corpo ser encontrado.
Sua voz estava firme ao telefone. Ela disse:
“Uma das noviças sofreu um acidente. Ela provavelmente saiu na madrugada, perdeu o equilíbrio no pátio escuro e caiu no poço.”
Ela disse isso antes mesmo de qualquer investigador colocar os pés no local.
Os dois policiais que atenderam a ocorrência eram da quinta delegacia de polícia da Asa Sul. Fizeram o boletim, fotografaram a cena e recolheram o corpo. O laudo preliminar, assinado pelo legista de plantão, indicou afogamento como causa da morte. O caso foi classificado como morte acidental. A família de Clara soube por telefone no meio da manhã.
Seu pai, Osmar Mendonça, recebeu a ligação no canteiro de obras onde trabalhava, em Montes Claros. A voz da Irmã Gorette era educada, compassiva e rápida ao dizer:
“Foi um acidente muito triste. Clara era uma jovem maravilhosa, e a congregação cobrirá os custos do transporte do corpo.”
Osmar desligou o telefone e ficou parado por um momento com o capacete na mão. Depois, ligou para a esposa, Dona Neusa. Ela não acreditou. Não era uma desconfiança infundada. Dona Neusa conhecia a filha. Clara tinha medo de altura desde criança. Nunca se aproximava de beiradas, escadas sem corrimão ou janelas abertas em andares altos.
A ideia de que ela teria se debruçado sobre um poço no escuro, sozinha, de madrugada, não fazia sentido. Osmar e Neusa chegaram a Brasília dois dias depois. Foram recebidos no convento pela Irmã Gorette em uma pequena sala com cadeiras de plástico e um crucifixo na parede. A Madre Superiora expressou condolências, ofereceu água e falou sobre fé e propósito divino.
Quando Osmar perguntou se poderiam ver o quarto da filha, ela disse:
“O quarto já foi organizado.”
Quando Neusa perguntou se havia câmeras no pátio, a resposta foi que o sistema estava com defeito há semanas. Osmar não disse nada, mas anotou tudo. A Irmã Patrícia, que dividia o quarto com Clara, não foi autorizada pela Madre Gorette a falar com a família.
A explicação dada foi que ela estava em estado de choque e precisava de repouso. Patrícia tentou mesmo assim. Secretamente, entregou um bilhete dobrado para Dona Neusa no corredor enquanto a Irmã Gorette atendia um telefonema. O bilhete continha apenas uma frase:
“Ela estava diferente nas últimas semanas. Entre em contato comigo depois.”
Dona Neusa guardou o bilhete no sutiã. De volta a Montes Claros, a família contratou um advogado. Eles não tinham dinheiro sobrando, mas o irmão mais velho de Clara, Rodrigo, economizara algum dinheiro trabalhando em uma empresa de transporte e usou tudo. O advogado, Dr. Marcelo Abrantes, protocolou um pedido formal de reabertura das investigações na Delegacia Especial de Repressão aos Crimes Contra a Pessoa (DHPP) em Brasília.
O pedido levou três semanas para ser analisado. Foi negado em primeira instância sob a alegação de que não havia indícios de crime. Rodrigo foi a Brasília pessoalmente, bateu em portas, falou com vereadores, com assessores de um deputado distrital e com um repórter de um site de notícias local. A história foi publicada em uma pequena matéria, sem foto, na seção de cidades.
Teve alcance limitado. Mas teve alcance suficiente para chegar até Sérgio Noleto. Sérgio era aposentado, tinha 62 anos e morava em um apartamento na Asa Norte. Por 30 anos, ele fora o zelador do convento. Conhecia cada canto daquele lugar. Tinha sido demitido em 2021, sem explicação formal, após questionar uma reforma feita no pátio que havia eliminado a iluminação ao redor do poço.
Quando leu a matéria no site, ficou sentado em frente ao computador por muito tempo. Depois, pegou o telefone e ligou para o número do advogado que estava ao final da reportagem. Ele disse:
“Eu tenho algo para contar. Na madrugada do dia 15 de março, vi da janela do meu apartamento, que fica de frente para o portão lateral do convento, um carro parado com o motor ligado.”
Ele continuou:
“Era um Jeep branco. Ficou por quase 40 minutos. Saiu pouco antes das 4 da manhã. Eu não falei antes porque ninguém perguntou e porque tive medo de quem estava dentro daquele carro.”
A ligação de Sérgio Noleto para o advogado Marcelo Abrantes ocorreu em uma tarde de abril de 2023. Naquele mesmo dia, Abrantes informou formalmente à DHPP a existência de uma testemunha com evidências fotográficas que vira um veículo suspeito estacionado na rua do convento nas horas da madrugada em que Clara morreu.
Desta vez, a delegacia não ignorou. A delegada responsável era a Dra. Fernanda Queiroz, 43 anos, com 20 anos de experiência na Polícia Civil do Distrito Federal. Ela recebera o pedido original da família com o ceticismo que é o procedimento padrão. Morte acidental, laudo de afogamento, ambiente religioso – o tipo de caso que desaparece rápido da fila.
Mas uma testemunha fornecendo uma foto era uma história diferente. Antes de convocar Sérgio, Fernanda releu o laudo preliminar. Afogamento, sem sinais de luta, sem marcas nos pulsos, apenas um arranhão no joelho direito descrito como compatível com uma queda. Ela anotou a parte sobre cair para frente ou para trás.
O laudo não especificava. Sérgio chegou vestindo uma camisa de botão e trazendo um envelope pardo. A foto estava escura e granulada, mas mostrava a silhueta de um veículo de cor clara estacionado na rua. Ele tirara as fotografias por hábito, disse ser a insônia de um aposentado. Viu o carro com o motor ligado após a meia-noite, achou estranho, tirou uma foto, mas não viu ninguém entrar ou sair pelo portão principal.
Ele também disse que reconhecia o veículo:
“Eu já tinha visto aquele Jeep estacionado perto do convento em outras ocasiões, sempre à noite, sempre pelo portão lateral. Nunca tinha prestado atenção antes.”
A análise da imagem pelo setor de tecnologia da PCDF identificou parte da placa.
Três letras, o suficiente para cruzar com o banco de dados do Detran-DF. O veículo era um Jeep Compass branco, ano 2021, registrado em nome da paróquia São Benedito. Fernanda ficou imóvel diante do monitor por alguns segundos. Depois, pediu um café e começou a reconstruir a linha do tempo desde o início.
Ela solicitou as imagens das câmeras externas de comércios e condomínios na rua onde o convento está localizado. Em três dias, tinha gravações de quatro ângulos diferentes. O Jeep aparecia em dois deles. Chegando pouco depois da meia-noite pelo portão lateral, saindo às 3h42 da manhã. A morte de Clara foi estimada entre 1h e 4h da manhã.
Fernanda convocou a Irmã Gorette novamente, desta vez formalmente na delegacia. A Madre Superiora chegou com o advogado da diocese de Brasília. Manteve a mesma versão. Sem visitantes naquela noite, câmeras com defeito, Clara agitada nas últimas semanas. Quando a delegada perguntou o que definia essa agitação, Gorette falou de dificuldade de concentração durante as orações e de ter visto a noviça chorar duas vezes sem explicação.
Fernanda perguntou:
“O Padre Renato tem a chave do portão lateral?”
Houve uma pausa. Gorette disse:
“Não posso dizer com certeza.”
A pausa durou um segundo a mais do que deveria. Fernanda não comentou, anotou e seguiu em frente. Sabia que pressionar naquele momento daria tempo para o advogado intervir.
Enquanto isso, Abrantes localizara a Irmã Patrícia. Ela fora transferida para uma casa da congregação em Anápolis, Goiás, menos de duas semanas após a morte de Clara, com a justificativa de necessidade de reforço na unidade regional. Quando Abrantes conseguiu falar com ela por telefone, ela chorou antes de conseguir dizer qualquer coisa.
Quando se acalmou, contou o que guardara para si. Na madrugada do dia 15, acordou por volta das 3h30 e viu que a cama de Clara estava vazia. Foi ao banheiro e encontrou a agenda azul aberta no chão do corredor. Havia uma nota escrita com letra apressada: “Padre R, Natália, Débora, cozinha. Preciso falar com alguém amanhã.”
Patrícia guardara o diário dentro de uma Bíblia em sua mochila. Ela confessou:
“Eu tive medo. Senti algo estranho no ar dentro daquelas paredes. Na manhã seguinte, quando o corpo da Clara foi encontrado, eu desabei. Quando voltei a mim, a Madre Gorette já tinha anunciado minha transferência.”
A Bíblia ainda estava na mochila em Anápolis. O juiz da primeira vara criminal do Distrito Federal deferiu o pedido de busca e apreensão em 48 horas. A perícia do Instituto de Criminalística confirmou: a caligrafia na agenda tem 97% de compatibilidade grafotécnica com a de Clara Mendonça. Data na margem: 14 de março de 2023.
Com a agenda em mãos, Fernanda solicitou a quebra do sigilo telefônico do Padre Renato. Os registros mostraram que, entre meia-noite e 4h da manhã do dia 15, o celular dele se conectara a uma torre a 300 metros do convento. Às 3h51, houve uma chamada recebida para Natália Drumon. Durou 2 minutos e 40 segundos.
Natália foi convocada. Chegou com o pai, o funcionário do Senado, e um advogado particular. Negou qualquer envolvimento na morte de Clara. Disse que mal a conhecia além das reuniões do grupo. Afirmou:
“A ligação foi um pedido de apoio espiritual em uma noite em que eu estava me sentindo muito mal emocionalmente.”
A delegada perguntou se era comum o padre ligar quase às 4 da manhã para esse propósito. Natália permaneceu em silêncio por tempo suficiente para que o silêncio se tornasse uma resposta. Débora Moura, interrogada no dia seguinte, deu uma versão semelhante. Quando Fernanda mencionou o Jeep nas câmeras, ela empalideceu, pediu para ir ao banheiro e voltou com um advogado.
Naquela semana, o Padre Renato postou um vídeo no YouTube sobre perseverança diante da perseguição. Sem mencionar nomes, falou de inveja e de pessoas que tentam destruir quem se dedica a fazer o bem. Teve 42.000 visualizações em dois dias. Nos comentários, fiéis pediam bênçãos e diziam estar orando por ele. Fernanda assistiu ao vídeo inteiro sozinha na delegacia após o expediente, fechou o notebook e assinou o pedido de indiciamento.
Padre Renato Figueiredo, Irmã Gorette e Natália Drumon foram indiciados por homicídio qualificado, ocultação de cadáver e fraude processual. Débora Moura foi indiciada como cúmplice. Os mandados foram cumpridos em uma manhã de maio de 2023. O sol ainda não tinha aquecido o asfalto da Asa Sul quando as viaturas pararam em frente à paróquia.
O julgamento do caso Clara Mendonça começou em 3 de fevereiro de 2025, no Tribunal do Júri do Fórum de Brasília, na Asa Sul. O salão era grande, com bancos de madeira escura e um ar-condicionado que mantinha a sala fria. Do lado de fora, um grupo de cerca de 40 pessoas esperava desde as 6 da manhã, antes mesmo da abertura do prédio.
Muitas eram mulheres, algumas vestindo hábitos, outras segurando fotos de Clara impressas em papel A4. A família viajara de Montes Claros dois dias antes. Osmar, Dona Neusa e Rodrigo sentaram-se na primeira fila reservada ao público, com as costas retas, sem se mexer muito.
O Padre Renato Figueiredo entrou pela porta lateral, acompanhado por dois advogados e um assessor da diocese. Vestia traje clerical escuro, não olhou para a família, sentou-se, abriu uma pasta e começou a conversar baixo com seus defensores, como se estivesse em uma reunião de trabalho. A Irmã Gorette entrou logo depois, visivelmente mais magra do que nas fotos do interrogatório.
Sentou-se sem olhar para os lados. Natália Drumon chegou por último entre os réus, sem o pai desta vez, apenas com seu advogado. Parecia menor do que estivera durante as audiências. Quando passou pela fila onde a família de Clara estava sentada, Dona Neusa olhou diretamente para ela. Natália desviou o olhar. O promotor era o Dr. Eládio Teles, de voz grave, 51 anos.
Trabalhara no caso por quase dois anos ao lado da delegada Fernanda Queiroz. O advogado de defesa mais experiente, Dr. Augusto Meirelles, representava o Padre Renato e era conhecido por conseguir absolvições em casos que pareciam encerrados. A primeira semana foi dedicada à apresentação das provas.
O promotor Teles construiu a acusação peça por peça. Começou com a agenda azul, exibida em um telão para os jurados. A nota de Clara foi lida em voz alta duas vezes. Depois vieram as imagens das câmeras externas, mostrando o Jeep chegando e saindo. Em seguida, os registros telefônicos da chamada da madrugada para Natália. Finalmente, o depoimento gravado de Sérgio Noleto. Teles sabia que o júri se convence pelo acúmulo, não pela emoção isolada.
A defesa do Padre Renato atacou as provas de todos os ângulos disponíveis. Augusto Meirelles argumentou que a imagem do Jeep era inconclusiva, que a placa não fora confirmada integralmente, que o veículo era de uso coletivo da paróquia e poderia ter sido usado por qualquer funcionário. Sobre os registros telefônicos, disse que a torre de celular identificada cobria um raio de vários quilômetros e que estar conectado a ela não provava presença física no convento.
Sobre a ligação para Natália, reiterou que ela mesma explicara o contexto. A parte em que Meirelles gastou mais tempo foi a nota na agenda. Ele afirmou:
“A caligrafia foi identificada como sendo de Clara, mas o conteúdo é vago. O nome abreviado ‘Padre R’ poderia se referir a qualquer padre cujo nome começasse com R. A palavra ‘cozinha’ pode significar qualquer coisa. ‘Preciso falar com alguém amanhã’ é o escrito de uma jovem com dificuldades emocionais, não uma prova de crime.”
O promotor rebateu em sua réplica:
“Havia exatamente um padre chamado Renato que tinha acesso ao convento. A cozinha foi o lugar onde os pertences de Clara foram encontrados espalhados. ‘Preciso falar com alguém amanhã’ foi o escrito de uma jovem que estava viva quando escreveu e morta antes que o amanhã chegasse.”
A segunda semana foi preenchida por depoimentos. A Irmã Patrícia foi a primeira a depor. Entrou na sala com o olhar baixo, sentou-se na cadeira de testemunhas e respirou fundo antes de começar. Contou tudo o que dissera ao advogado Abrantes, desta vez diante do júri. Falou sobre a agenda no corredor, sobre o medo sem forma, sobre a transferência. Quando a defesa perguntou por que ela demorara tanto para falar, ela respondeu:
“Porque eu tive medo e porque ninguém me perguntou antes de me mandarem para Anápolis.”
Débora Moura depôs em seguida como testemunha de acusação após um acordo com o Ministério Público, que reduziu sua condição de ré para colaboradora mediante confissão parcial. Ela entrou na sala sem advogado ao lado, o que fez os outros defensores se mexerem em suas cadeiras. Confirmou que estivera no convento na noite de 14 para 15 de março.
Ela relatou:
“Eu e Natália chegamos pouco depois da meia-noite a pedido do padre, que disse querer realizar uma oração especial fora do horário das freiras. Quando Clara apareceu na cozinha, o padre agiu de forma diferente, tenso, e pediu que nós duas saíssemos do local imediatamente. Eu fui para fora, entrei no carro, ouvi um barulho, mas não voltei. O padre me ligou às 3h51, não para conforto espiritual, mas para dizer que eu não tinha visto nada.”
Quando Débora terminou de falar, Natália Drumon, sentada a poucos metros, manteve o rosto imóvel, mas a mão que segurava a caneta estava branca de tanto apertar. O depoimento mais tenso foi o do próprio Padre Renato. Ele tinha o direito de permanecer em silêncio, mas escolheu falar. Ficou ali por quase 40 minutos, respondendo ao promotor com sua calma e compostura habituais.
Negou estar no convento naquela noite. Disse que o Jeep fora emprestado a um voluntário da paróquia. Afirmou que a chamada para Natália fora iniciada por ela através do aplicativo de mensagens e que ele retornara a ligação via telefone normal porque estava sem acesso à internet naquele momento. O promotor Teles solicitou que os registros do aplicativo de Natália fossem exibidos na tela.
Não havia mensagens enviadas por ela naquela madrugada, apenas a chamada recebida do número do padre. O Padre Renato olhou para a tela por um momento. Depois disse:
“Devo ter me confundido com outra noite.”
Meirelles solicitou um recesso. Quando o julgamento foi retomado, já era fim de tarde. O sol entrava pelas janelas altas da sala em um ângulo baixo, cortando a poeira no ar. Dona Neusa estava sentada no mesmo lugar desde o início, com as mãos no colo e os olhos fixos na nuca do padre. Os debates finais estavam marcados para a semana seguinte. Para muitos que acompanhavam o caso, a sentença era uma questão de “quanto”, não de “o quê”.
Mas ninguém em Brasília esquecera que casos envolvendo a igreja raramente terminavam sem surpresas. Os debates finais ocorreram em uma quinta-feira de fevereiro de 2025. O salão do júri estava mais cheio do que nos dias anteriores. Do lado de fora, o grupo de apoiadores crescera. Alguém instalara um painel com a foto de Clara adolescente, sorrindo em uma festa de aniversário em Montes Claros.
O promotor Eládio Teles usou 1h40 nos debates finais. Não gritou, não dramatizou, foi direto. Reconstruiu a cronologia do crime em ordem, sem lacunas. O flagrante, a ameaça no pátio, o Jeep nas câmeras, a agenda, o telefonema, o silêncio comprado da Irmã Gorette, a transferência forçada de Patrícia, a mentira do padre sobre os registros do aplicativo.
Ele declarou:
“Cada elemento individual poderia ser contestado, mas o conjunto forma uma linha que só leva a um lugar. Clara Mendonça entrou naquele convento aos 19 anos acreditando que servia a algo maior que ela mesma. Ela morreu porque foi honesta. A justiça deve a ela não apenas uma condenação, mas a afirmação de que seu nome não será esquecido.”
Meirelles insistiu na ausência de provas diretas, na falta de uma testemunha ocular do crime em si e sugeriu que Débora fabricara sua versão para se beneficiar da delação. Disse que o padre servira à comunidade por 20 anos. O promotor, em sua réplica, disse que 20 anos de serviço não anulam uma madrugada de março.
Os jurados retiraram-se às 14h10. Osmar Mendonça permaneceu do lado de fora do fórum durante a deliberação. Não conseguia ficar sentado. Caminhava devagar pela calçada, mãos nos bolsos, olhando para o chão. Dona Neusa ficou lá dentro, no banco de madeira, com o terço enrolado nas mãos. Rodrigo ficou ao lado dela, sem falar.
A deliberação durou 3 horas e 42 minutos. Quando os jurados voltaram, a sala encheu-se novamente em questão de minutos. O silêncio que caiu quando o presidente do júri se levantou para ler o veredito era o tipo de silêncio que pesa. O Padre Renato Figueiredo foi condenado por homicídio qualificado, com as agravantes de motivo fútil e fraude processual.
A Irmã Gorette foi condenada por cumplicidade no homicídio e ocultação de cadáver. Natália Drumon foi condenada por cumplicidade e omissão de socorro. A pena do padre foi fixada em 22 anos de reclusão em regime fechado. Quando o número foi lido em voz alta, Dona Neusa fechou os olhos.
Rodrigo colocou a mão no ombro dela. Osmar, que entrara na sala para o veredito, ficou parado com a mão na boca por alguns segundos. Depois baixou a cabeça. Do lado dos réus, o Padre Renato ouviu a sentença com sua expressão severa de sempre. Apenas seus dedos se moviam, apertando a borda da pasta contra a mesa.
A Irmã Gorette chorava silenciosamente. Natália olhava para o próprio colo. Do lado de fora, conforme a notícia se espalhava pelos celulares, o grupo de apoiadores de Clara aplaudiu. Alguns choraram. Uma mulher mais velha, que ninguém ali conhecia, parou em frente ao painel com a foto de Clara e ficou olhando para ela por muito tempo.
Parecia que tinha acabado, mas não acabou. 43 dias após a condenação, a defesa do Padre Renato entrou com um recurso no Tribunal de Justiça do Distrito Federal. A petição alegava nulidade processual devido a uma suposta irregularidade na coleta de um dos depoimentos. Questionava a validade do acordo com Débora Moura e pedia a revisão da pena baseando-se em atenuantes de bons antecedentes.
Meirelles também solicitou um Habeas Corpus, citando problemas de saúde do réu, e anexou um laudo de um cardiologista particular. O TJDF admitiu o recurso para revisão. A execução da pena foi suspensa enquanto o tribunal deliberava. O Padre Renato voltou para casa. A notícia chegou a Montes Claros em uma tarde de abril.
Rodrigo leu no celular e ficou na varanda por um tempo antes de entrar para contar aos pais. Osmar ouviu, levantou-se, foi para o quintal e ficou lá sozinho por quase meia hora. Dona Neusa não disse nada, pegou seu terço e foi para o quarto. Abrantes ligou para a família. Ele disse:
“A suspensão é temporária. O recurso tem base fraca e há um histórico de manutenção de condenações semelhantes.”
Disse tudo o que se diz quando não há como garantir nada. A comunidade em Brasília, que acompanhara o caso, dividiu-se nas redes sociais. Os comentários iam da indignação com a soltura a declarações de fé dos apoiadores do padre, que diziam que a verdade divina prevaleceria. O canal do YouTube do Padre Renato, que estivera inativo durante o julgamento, publicou um vídeo curto.
Ele aparecia sentado, com as mãos cruzadas sobre a mesa, e dizia apenas:
“Ainda há muito a ser esclarecido.”
O vídeo recebeu 68.000 visualizações. Fernanda Queiroz soube da suspensão da pena pela manhã, antes mesmo de chegar à delegacia.
Leu a notícia no celular enquanto estava presa no trânsito da EPNB, colocou o aparelho no banco do passageiro e ficou olhando para o engarrafamento parado à sua frente. Trabalhara naquele caso por dois anos, lera o laudo original dezenas de vezes e assistira ao vídeo inteiro do padre no YouTube sozinha depois do trabalho. Sentara-se à frente de Natália Drumon e vira sua mão ficar branca em volta da caneta.
Ela sabia que recursos existiam e que o sistema funciona em etapas. Sabia disso com a parte racional da mente, mas havia outra parte. A parte que pensava em Osmar caminhando pela calçada do fórum com as mãos nos bolsos, em Dona Neusa com o terço, no painel com a foto de Clara sorrindo em uma festa de aniversário.
O trânsito andou. Fernanda deu partida no carro. O recurso do Padre Renato Figueiredo ainda aguardava julgamento no Tribunal de Justiça do Distrito Federal, sem data definida para conclusão. Clara Mendonça tinha 23 anos quando morreu. De acordo com o que escreveu em cartas para a família que foram encontradas depois, ela queria terminar a faculdade de teologia e um dia trabalhar com crianças de rua no Distrito Federal.
Ela nunca teve a chance de descobrir se conseguiria.