
Você consegue imaginar um dos chefões mais famosos do Rio de Janeiro, preso em regime de segurança máxima, articulando de dentro da cela uma aliança com a facção mais poderosa do país para reconquistar seu império? Isso não é filme, é a realidade que envolve Nem da Rocinha, sua filha Duda e o Primeiro Comando da Capital. Áudios interceptados, cartas lidas em presídios e viagens misteriosas revelam um plano que poderia ter redesenhado completamente o poder das facções no Rio de Janeiro. Uma história de desespero paternal, ambição, traições e alianças circunstanciais que mostra como, no mundo do crime, até inimigos viram parceiros quando o interesse é grande o suficiente. Se prepara, porque essa trama tem reviravoltas dignas de série de televisão e ainda choca quem acompanha o submundo carioca.
Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, não nasceu para o crime. Criado na maior favela do Brasil, ele levava uma vida comum como instalador de TV a cabo, pagava imposto de renda e nunca tinha se envolvido com drogas ou violência. Tudo mudou quando sua primeira filha, Eduarda, a Duda, com apenas nove meses de idade, foi diagnosticada com histiocitose X, uma doença rara e agressiva em que o próprio sistema imunológico ataca os tecidos saudáveis do corpo. Em bebês, ela pode ser fatal se não tratada rapidamente, e o tratamento era extremamente caro, muito além do que um trabalhador honesto poderia pagar em anos de serviço. Foi o desespero de um pai que o levou para o tráfico. Não por ambição inicial, mas por amor. Em pouco tempo, o homem que entrou no crime para salvar a filha se tornou o dono do morro, comandando a Rocinha e faturando milhões de reais por ano.
Essa transformação é contada no livro “O Dono do Morro”, de Misha Glenny, que levanta uma reflexão forte: o que você faria no lugar dele? Com uma filha doente, contas hospitalares impagáveis e a vida desmoronando, até onde um pai vai para proteger o filho? Muitos se perguntam isso até hoje. Nem construiu um império, mas em 2011 foi preso e transferido para uma penitenciária federal de segurança máxima em Rondônia, onde cumpre pena de mais de 145 anos em regime disciplinar diferenciado: 22 horas por dia isolado em cela individual. Fora de cena, seu ex-segurança Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, assumiu o controle da Rocinha, se aliou ao Comando Vermelho e se tornou o maior inimigo do antigo chefe. Relatos apontam que Rogério chegou a expulsar familiares de Nem da comunidade, intensificando a rivalidade.
É aí que entra o segundo ato dessa história explosiva: a articulação entre Nem da Rocinha e o PCC. Escutas telefônicas e investigações revelam que a facção paulista selou uma aliança estratégica com o traficante carioca. No vácuo de poder deixado pela prisão de Nem, sua filha Eduarda Santos Lopes, a Duda, entrou em ação. Com apenas 19 anos, ela viajou para São Paulo acompanhada do namorado Adriano Cardoso da Silva, conhecido como Modelo. O que parecia uma viagem comum virou prova policial: imagens mostram Duda entrando em uma favela paulista e sentando à mesa com membros identificados do PCC. A pauta era clara: retomar a Rocinha de Rogério 157 com apoio pesado do Comando de São Paulo.
O acordo era direto e ambicioso. O PCC entraria com fuzis, armamento pesado e suporte logístico. Em troca, Nem — mesmo preso e supostamente incomunicável em Porto Velho — oferecia participação no controle da maior favela do Brasil. Eles discutiram detalhes como tipo de armamento e prazos para o ataque. O plano só não foi executado porque os vídeos e evidências chegaram à Delegacia de Combate ao Crime Organizado do Rio. A polícia descobriu que Duda, depois de a mãe ter sido usada para transmitir mensagens, assumiu o papel de negociadora principal. Uma jovem de 19 anos envolvida diretamente em tratativas para uma invasão armada em grande estilo.
Desde os anos 2000, o PCC tenta expandir influência para o Rio de Janeiro. Houve aproximações pontuais, inclusive com o Comando Vermelho dentro dos presídios, mas o Rio sempre manteve dinâmica própria, dominada por facções locais. Essa aliança com Nem representava uma oportunidade real de entrada mais sólida. Áudios interceptados reforçam isso. Em uma ligação de setembro do ano passado, um integrante do PCC preso em Morrinhos, Goiás, conhecido como Terrorista (Noabi Vinícius Silva Souza), lê uma carta para a esposa: “Fora Rogerinho e Fora Sub2”. A referência clara é a Rogério 157. Ele pergunta: “Nem está com nós, né? Apoiamos o Nem.” Investigadores não têm dúvidas: o PCC apoiava ativamente a retomada do morro por Nem, fornecendo drogas e armamentos em troca de território.
Mas essa não foi a primeira conexão entre Nem e o PCC. Antes mesmo de ser preso, em 2010, a polícia interceptou um grampo histórico. Dois chefes pesados do Primeiro Comando da Capital ligaram diretamente para Nem da Rocinha. Rogério Jeremias de Simone, o GG do Mangue, considerado sintonia final da organização com 33 anos na época, e Roberto Soriano, o Tiriça, com cerca de 37 anos, também sintonia final. O áudio é revelador e mostra respeito mútuo. Eles se apresentam como voz final do comando, elogiam Nem, falam de não ter guerra com ele, respeitar o “ritmo” dele no Rio e discutir alianças passadas. Nem responde com tom de homem de palavra, dizendo que paga suas paradas, ajuda quem pode e não tem problema com ninguém. Eles trocam ideias sobre situações com outras facções, como o CV, e exploram possibilidades de maior aproximação.
GG do Mangue construiu um império internacional antes de ser executado pela própria organização. Tiriça foi expulso depois de guerras internas, inclusive contra Marcola. Nem, que entrou no crime por causa da filha, terminou condenado a séculos de prisão. Duda, ainda jovem, se viu no meio de negociações perigosas. Rogério 157 segue como inimigo declarado. O mundo do crime não perdoa: não existe aposentadoria, apenas o dia em que a conta chega. Alianças nascem da necessidade, como nas guerras mundiais, quando rivais se unem contra um inimigo maior. No caso de Nem e PCC, o objetivo comum era eliminar Rogério 157 e reconquistar a Rocinha.
Essa história levanta debates profundos sobre o crime organizado no Brasil. Como um pai desesperado se transforma em chefão? Como uma filha de 19 anos vira peça-chave em negociações de alto risco? E até onde o PCC está disposto a ir para fincar bandeira no Rio? As interceptações mostram uma rede que vai além de território: logística de armas, drogas e poder. A prisão de Nem em regime máximo não impediu as articulações, o que expõe falhas no sistema penitenciário federal. Enquanto isso, a Rocinha continua palco de disputas sangrentas, com famílias divididas e moradores no meio do fogo cruzado.
Eduarda sobreviveu à doença graças ao esforço do pai, mas entrou no jogo perigoso do crime. Nem, de dentro da cela, mantém influência. O PCC vê no Rio uma fronteira estratégica. Tudo isso poderia ter culminado em uma guerra de proporções enormes, com fuzis paulistas invadindo a zona sul carioca. A polícia agiu a tempo, mas o plano revela como as facções se movimentam nos bastidores, usando família, cartas, áudios e viagens para costurar acordos.
No fim, o crime cobra seu preço. Nem cumpre pena pesada, isolado. GG e Tiriça tiveram fins trágicos dentro da própria facção. Rogério 157 luta para manter o controle. E Duda carrega o peso de ser filha de um dos nomes mais famosos do tráfico. Essa aliança frustrada entre PCC e Nem da Rocinha mostra a fragilidade das fronteiras entre as organizações e como uma favela pode mudar o equilíbrio de poder nacional.
Pessoal, o que você acha dessa história? Acha que Nem foi vítima das circunstâncias por causa da filha doente ou se deixou levar pelo poder? O PCC vai conseguir se estabelecer de vez no Rio? Deixa seu comentário aqui embaixo, ativa o sininho, deixa o like e se inscreve no canal para não perder os próximos vídeos sobre o mundo do crime, facções e grandes casos que abalam o Brasil. Compartilhe essa matéria para mais gente entender como funcionam essas articulações nos bastidores. Um forte abraço e até a próxima. Fique ligado, porque a saga do Nem da Rocinha e das facções está longe de acabar.