
Caminhão de mulher caminhoneira é encontrado submerso no rio Parana. A suspeita de que haja vítima no interior.
Meu nome é Henrique Vaz. Eu não sou um caminhoneiro ou um perito, mas um professor universitário que em 2024 se mudou para a cidade de Guaíra, no Paraná. Queríamos uma vida mais tranquila, longe do caos de Curitiba, perto do rio Paraná. Eu e minha esposa, Aline, tínhamos uma filha de 6 anos, a Cecília. A casa que compramos era um achado, uma construção de madeira antiga, espaçosa, com um porão grande e úmido, perfeita para eu montar meu escritório e minha adega. O porão era o ponto fraco, frio, com cheiro de terra molhada e mofo e completamente sem janelas. Nas primeiras semanas tudo foi perfeito, exceto por Cecília. Ela, que sempre foi alegre e sociável, começou a ter pesadelos. Acordava gritando, falando sobre um amigo no porão. Papai, o amigo está esperando você lá embaixo.
Ele me disse para não ir lá sozinha. Ela me dizia, os olhos arregalados. Eu e Aline tentamos ser pacientes. É só imaginação, filha. O porão é escuro, mas não tem ninguém. Mas Cecília insistia.
Ela começou a passar horas desenhando.
Os desenhos eram perturbadores.
Não eram típicos rabiscos infantis. Eram figuras alongadas, com membros desproporcionais e um sorriso largo e vazio. E havia sempre dois elementos que se repetiam: um triângulo com um olho no centro e a cor verde piscina. A situação piorou quando eu comecei a sentir o cheiro. Era um cheiro metálico, acre, que lembrava enxofre e gasolina velha.
Eu sentia esse cheiro apenas no porão.
Achei que era um vazamento de gás.
Chamei a companhia de gás, mas eles não encontraram nada. Foi então que Cecília começou a falar com o amigo abertamente.
Uma tarde eu desci para o porão para pegar uma garrafa de vinho e vi Cecília sentada no chão de cimento, no canto mais escuro, conversando. Ele não gosta do papai, amigo. Papai sempre trabalha no computador. Cecília, com quem você está falando? Eu perguntei. Ela se virou com o mesmo sorriso que eu via nos desenhos. Não era o sorriso dela, era forçado, largo demais, com o amigo papai. Ele disse que você precisa descer mais vezes para ele poder te mostrar a coisa verde. Eu me abaixei, peguei ela e a abracei. Senti um arrepio. Ela estava gelada, mas o abraço dela era forte demais para uma criança. Filha, o amigo é imaginário. Não tem ninguém aqui. Ela me olhou e o sorriso sumiu. Seus olhos eram sérios, escuros. Papai, o amigo me disse que se você não descer, ele vai fazer o barulho de novo. O barulho que ele fez quando a mulher sumiu no rio.
Meu sangue gelou. A tragédia da cidade era o assunto principal. Há três semanas, um caminhão tinha caído no rio Paraná, na divisa com o Mato Grosso do Sul. As equipes de resgate tinham encontrado o caminhão, um modelo Scania, velho, submerso, mas o motorista não estava dentro. A polícia suspeitava que houvesse uma vítima no interior ou que o corpo tivesse sido levado pela correnteza. A caminhoneira desaparecida era Cíntia Lopes Brandão. Quem te falou da mulher do rio, Cecília? Ela apontou para o canto escuro. O amigo, ele viu tudo e ele disse que o papai está envolvido. Eu tentei ligar os pontos. Eu não conhecia Cíntia Lopes Brandão. Eu era um professor de linguística. Eu não tinha nada a ver com o rio ou caminhões.
Naquela noite, eu fui trabalhar no meu escritório improvisado. O sono não vinha. Eu estava sentado à mesa quando meu olhar caiu sobre um dos desenhos de Cecília pregado na parede. Era um monstro alto sorrindo e no canto do desenho a Cecília havia rabiscado um rosto menor. Era um homem de uns 40 anos com bigode e óculos de grau. Abaixo do desenho, ela havia escrito os olhos do inspetor Daniel Costa.
O inspetor cívil Daniel Costa era o nome do policial que estava liderando as buscas por Cinntia Lopes Brandão. O rosto no desenho era idêntico à foto dele que saiu nos jornais. Eu me senti mal. A imaginação de Cecília estava ligada aos fatos mais sombrios da cidade. Eu me levantei e fui até o porão, levado por uma curiosidade doentia. Entrei. O cheiro de enxofre estava mais forte do que nunca. e eu podia ouvir um gotejar constante no silêncio. Eu liguei a lanterna do celular e apontei para o chão de cimento, no centro do porão, onde Cecília havia estado sentada. A terra parecia mais escura e macia. Eu me ajoelhei. Estava úmido, apesar de ser cimento. Com a mão, senti a superfície.
O gotejar parou. Eu olhei para o teto do porão, que era o piso do meu escritório.
Havia uma rachadura no concreto e pendurado na rachadura havia um pequeno objeto. Era uma corda tensa que ia até o porão escuro. E na ponta da corda havia uma chave, uma chave de latão grande, antiga, não era minha, e estava escorrendo algo verde piscina. O gotejamento cessou e o silêncio no porão foi preenchido apenas pelo zumbido da minha adrenalina. A chave de latão pendurada na rachadura do concreto estava coberta com um líquido viscoso e verde piscina, a mesma cor que Cecília usava obsessivamente em seus desenhos.
Com as mãos trêmulas, alcancei e peguei a chave. Ela estava fria e pesada. O líquido verde tinha um cheiro químico e metálico, diferente do enxofre, mas igualmente repulsivo. Eu saí do porão rapidamente, sentindo que havia violado uma fronteira. Corri para o meu escritório, examinando a chave sob a luz da mesa. Ela parecia pertencer a um baú ou a um depósito antigo. E o líquido verde parecia corrosão ou algo biológico estranho. O terror não me permitiu mais racionalizar. Eu peguei meu celular e liguei para o único contato que eu tinha com a polícia, o inspetor civil Daniel Costa, aquele cujo rosto e olhos estavam desenhados pela minha filha no canto da folha. Inspetor Costa, aqui é Henrique Vaz, o professor que se mudou para Guaíra. Eu sei que o senhor está investigando o caso da caminhoneira Cíntia Lopes Brandão. Eu preciso falar com o senhor com urgência, minha filha.
Minha filha desenhou o seu rosto e a casa está estranha. O inspetor Costa, para minha surpresa, não me achou louco.
Sua voz era grave e cansada. Eu sei quem você é, senor Vaz. Eu investiguei o histórico dessa casa. Eu irei até aí agora. Ele desligou. O que ele sabia sobre a casa? Enquanto eu esperava, a curiosidade me levou de volta aos desenhos de Cecília. Eu tirei o desenho do amigo e do inspetor costa da parede.
Atrás do desenho, no verso, havia uma pequena nota escrita com a caligrafia de Cecília, mas com uma ortografia perfeita que ela ainda não possuía. O porão é a tampa. A chave de latão abre o segredo da Cíntia. O amigo não é imaginário. Ele é a culpa. Ele viu o corpo da Cíntia Lopes Brandão antes de ir para o caminhão no rio Paraná. E ele usa os olhos do inspetor Daniel Costa para nos vigiar, porque ele é o mais culpado. O amigo vai fechar a rachadura se você não abrir o porão para ele. Eu congelei a culpa, o inspetor, o porão, o que estava no porão. Ouvi a batida na porta. Era o inspetor Daniel Costa. Ele entrou, um homem de 40 e poucos anos, exausto, com o rosto idêntico ao desenho da Cecília.
Ele olhou para o meu escritório, mas seus olhos, que pareciam buracos negros, estavam fixos na porta do porão. “Senor Vaz, não temos tempo. Eu sei o que está acontecendo. Essa casa não é sua. Ela é um ponto de amarração.” Amarração de que, inspetor? Eu encontrei esta chave no porão”, eu disse, estendendo a chave verde piscina. O inspetor Costa empalideceu. “Você não devia ter tocado nela. Essa chave é a única que abre o baú de ferramentas do caminhão da Cíntia Lopes Brandão. O caminhão está no rio Paraná. A chave deveria ter sido levada pela correnteza ou estar com ela. Então, a Cíntia esteve aqui e o que há de tão importante no baú?” O inspetor se aproximou. Sua voz era baixa e urgente.
No baú, senhor vá, estão os documentos que provam que Cinntia Lopes Brandão não morreu por acidente. Ela descobriu um esquema de tráfico de órgãos na região de Guaíra, usando a rota do rio Paraná.
E eu, Daniel Costa, estava no esquema.
Eu sou o inspetor corrupto que a matou e jogou o caminhão dela no rio para apagar as provas. A confissão dele era tão direta e fria que me desarmou. A culpa que eu senti na história 10 era o que o inspetor Costa estava sentindo agora.
Mas ele não estava transformado em um monstro. Ele estava apenas quebrado. Se o Senhor a matou, por que está aqui?
Porque eu estou sendo atormentado. O espírito dela está ligado a esta casa.
Eu a matei aqui na fundação desse porão, antes de levar o corpo dela e o caminhão para o rio. O porão é o ponto de início do ritual. O amigo que sua filha vê a culpa não está ligado a você, está ligado a mim. Ele está usando os meus olhos, o meu medo para fazer sua filha desenhar o meu crime. Enquanto ele falava, o cheiro de enxofre no escritório aumentou. O inspetor olhou para o teto. Você ouviu o que a Cíntia me disse antes de eu matá-la? Você não vai conseguir se esconder no porão de madeira, Daniel. O rio vai te levar, mas eu vou te achar aqui, onde você me escondeu. De repente, o inspetor Costa se virou com o rosto contorcido de pânico. Ele apontou para o canto do meu escritório. Ele está aqui, o amigo. Ele está vindo por você, Senr. Vaz. Ele quer um novo corpo para se esconder. Eu olhei para o canto, não havia nada, mas a rachadura no teto do porão que dava para o meu escritório estava se alargando rapidamente e o líquido verde piscina começou a escorrer, desta vez em um filete grosso. E então o inspetor Costa pegou a minha faca de papel que estava na mesa e com um grito desesperado, a cravou profundamente em seu próprio peito. A CIA, ela me levou. Ela levou o cobrador com ela. Ele caiu no chão, morto. Em um instante, a rachadura no teto parou de crescer. O cheiro de enxofre se dissipou. Apenas o sangue dele escorria no tapete. O inspetor Daniel Costa havia se matado e com ele, o cobrador da culpa que estava usando os olhos dele parecia ter desaparecido.
Eu me ajoelhei ao lado do corpo dele. Eu era a única testemunha de uma confissão e um suicídio. Ainda em choque, eu fui até o quarto da Cecília. Ela estava acordada, sentada na cama, olhando para a porta. Papai, o amigo está triste. Ela disse, onde ele está, filha? Ele não tem mais os olhos do inspetor. Ele foi lá para o porão e ele levou a chave da coisa verde. Eu olhei para a minha mão.
A chave de latão havia sumido. O suicídio do inspetor Daniel Costa no meu escritório me deixou em estado de choque. A confissão dele, ligando o porão da minha casa ao assassinato de Cíntia Lopes Brandão e a um esquema de tráfico de órgãos. era aterrorizante. O amigo imaginário de Cecília, a manifestação da culpa de Costa havia sumido junto com a chave do baú do caminhão. Eu liguei para a Polícia Militar imediatamente, reportando o suicídio do inspetor e o que ele havia confessado sobre a caminhoneira. Minha casa se tornou mais uma vez uma cena de crime. A perícia e a polícia civil chegaram. Eles removeram o corpo de costa e começaram a revistar o porão, seguindo minhas instruções sobre a confissão. O cheiro de mofo e terra era intenso, mas o cheiro de enxofre havia desaparecido. As equipes cavaram a fundação, exatamente onde Costa havia me dito que escondeu o corpo de Cyntia Lopes Brandão antes de jogá-lo no rio.
Eles não encontraram ossos nem sangue coagulado. Eles encontraram uma câmara de concreto subterrânea, pequena, com cerca de 1 m². A câmara estava vazia, mas as paredes internas tinham marcas profundas, feitas com um objeto afiado, como garras. E em um canto havia um desenho grotesco entalhado no concreto, o mesmo triângulo com o olho no centro que Cecília desenhava. Senhor Vaz, o delegado chefe me disse, o rosto perplexo. Não encontramos o corpo, mas encontramos a origem do cheiro que o senhor descreveu. Isso aqui era uma espécie de depósito de produtos químicos. Ele me mostrou um recipiente de plástico que havia sido enterrado sob o concreto, agora vazio. Encontramos traços de formalina e ácido peracético.
O líquido verde piscina que o senhor viu e que estava na chave é o resíduo do formalina misturado com a umidade e algum tipo de metal. O formalina é usado para preservar ou para dissolver matéria orgânica. O inspetor Costa não havia escondido o corpo de Cíntia ali. Ele havia dissolvido-o na fundação da minha casa. O cheiro de enxofre era o cheiro da decomposição química e a câmara era um laboratório improvisado. A casa não era um ponto de amarração, era o berço da culpa. A polícia também encontrou documentos de costa escondidos nas vigas do porão. Eram registros de transações bancárias e rotas de transporte. Os documentos confirmavam o envolvimento dele no tráfico de órgãos. Cíntia Lopes Brandão havia descoberto o esquema e a rota fluvial, usando o seu caminhão para transportar a carga. Enquanto a polícia trabalhava, eu me concentrei em Cecília.
Ela estava quieta. “O amigo se foi, papai?”, perguntei. “Sim, filha, ele se foi.” “Ele me disse que não se foi.” Ela respondeu com a mesma voz calma e perturbadora. Ele disse que só mudou de lugar. Ele disse que se o corpo da Cinntia não está mais no chão, ele precisa de um novo lugar para descansar.
Ela me entregou um novo desenho feito com caneta azul, sem a cor verde. O desenho mostrava uma figura alta com os olhos de Daniel Costa, mas o corpo parecia estar nadando que era inconfundivelmente um rio. Ao lado da figura havia um caminhão submerso e na margem do rio estava a minha casa. Ele foi para Cíntia, Cecília sussurrou. Ele foi descansar no caminhão no rio Paraná.
A polícia ainda estava trabalhando no porão. Eu precisei me afastar para respirar. Fui para a varanda. De lá eu podia ver o rio Paraná, largo e preguiçoso, sob a luz do sol da tarde.
Enquanto eu observava a água, meu celular tocou. Era um número desconhecido. Hesitei, mas atendi. A voz do outro lado era fraca, rouca, mal audível. Alô. Uma risada seca. Quase um arquejo veio do outro lado e então a voz sussurrou com um som que parecia vir da água. Henrique, aqui é a Cíntia. O caminhão está submerso e o amigo, ele tem os seus olhos agora. A ligação caiu.
Meu sangue gelou. Eu não entendia. Eu não havia matado Cíntia. A culpa de Daniel Costa havia se transferido para o caminhão submerso. O porão estava limpo, mas o último desenho de Cecília, o que ligava o rio Paraná à minha casa, havia me dado a resposta. Eu corri para o espelho do banheiro, olhei para o meu reflexo. Meu rosto estava pálido, meus olhos eram os meus, mas no canto dos meus olhos havia uma mancha fina e esverdeada, como se eu tivesse chorado resina de formalina. E eles estavam injetados de sangue, como os olhos do inspetor Daniel Costa no desenho de Cecília. O amigo não estava no porão, nem no rio. Ele estava em mim. A voz de Cíntia Lopes Brandão ao telefone, vinda de um caminhão submerso no rio Paraná e a mancha esverdeada nos meus próprios olhos eram a prova de que a culpa, o amigo imaginário, havia se transferido de Daniel Costa para mim. O inspetor Costa havia cometido o crime na fundação da minha casa. Ele se matou. O amigo, o parasita da culpa, precisava de um novo hospedeiro inocente para se esconder do fantasma de Cíntia. e eu era o único vizinho. Eu voltei para o porão, onde a equipe de perícia estava terminando de coletar amostras do cimento. “Inspetor”, eu disse, tentando manter a calma. “A chave, a chave de latão que eu encontrei, ela deve estar no baú de ferramentas do caminhão no rio. O senhor precisa mandar mergulhadores e abrir aquele baú.” O delegado me olhou com desconfiança. “O Sr. Vaz está muito envolvido emocionalmente. Vamos abrir o baú. Mas por que tanta insistência?
Porque a Cíntia me ligou. Eu sussurrei.
E o amigo está esperando lá dentro. O delegado ignorou a parte do amigo, mas a urgência, em minha voz, o convenceu. Ele concordou em enviar uma equipe de mergulho do Corpo de Bombeiros, que já estava mobilizada na área do rio Paraná.
Eu sabia que se o baú fosse aberto, o amigo da culpa seria exposto. Mas se ele estava em mim, a exposição dele no caminhão poderia me libertar ou me destruir. Eu voltei para o quarto da Cecília. Ela estava deitada com a respiração calma. Sentei-me ao lado dela. Papai, o amigo não está mais em você. Ele foi nadar. Ela disse de olhos fechados. Você tem certeza, filha? Sim.
Ele disse que o papai é muito chato e que a Cíntia tem um caminhão mais legal para esconder. A culpa me havia abandonado ou ele havia me usado como um portal. Duas horas depois, a polícia me ligou. A equipe de mergulho havia encontrado o caminhão Scania de Cíntia Lopes Brandão. O baú de ferramentas no compartimento submerso do caminhão estava intacto. Encontramos a chave, Senr. Vaz. A sua chave. Ela estava na fechadura do baú e o baú estava trancado por dentro. Os mergulhadores tiveram que usar uma alavanca para abrir. Meu coração disparou. O que tinha dentro, inspetor? O inspetor hesitou. Sua voz estava tensa. Havia um caderno, um diário de bordo e o cadáver. O cadáver da Cíntia Lopes Brandão. Não, o cadáver é de um homem. está em avançado estado de decomposição, mas pelas roupas é um corpo de funcionário público, possivelmente da área de fiscalização.
Parece ter sido amarrado e abandonado. O mais estranho é que o corpo tinha os olhos completamente vazios, como se tivessem sido arrancados. O amigo tinha os olhos de Daniel Costa e o cobrador tinha levado um corpo com os olhos vazios. O inspetor continuou. O diário, o diário de bordo é de Cíntia. Ela descreve em detalhes o esquema de tráfico de órgãos, ligando o inspetor Daniel Costa e outros oficiais. Ela também escreveu sobre ter sido perseguida e escondido o diário antes de ser atacada. Mas o final, o final é o que nos intriga. O delegado me leu a última página. Eu estou aqui no baú submersa. O Daniel me amarrou e me abandonou, mas o amigo veio me encontrar. Ele me disse que eu sou o novo corpo. Ele me disse que eu preciso de olhos para dirigir o caminhão. Eu vou usar os olhos dele. Eu vou esperar o próximo vizinho, aquele que mora no laboratório de formalina, aquele que me libertou. Ele será o meu novo mestre e eu vou dirigir o caminhão para sempre. A voz ao telefone não era de Cíntia, era a minha própria culpa personificada que usava a voz da vítima. E agora ela estava dirigindo um caminhão submerso, esperando um novo hospedeiro com olhos frescos. Eu olhei para o espelho. A mancha verde havia sumido. O alívio me inundou. A culpa me havia deixado em paz. Eu voltei a viver na casa, apesar de tudo. O porão foi selado com cimento novo. Cecília nunca mais mencionou o amigo, mas de vez em quando, quando estou na sala de estar, eu ouço o que parece ser um ronco de motor a diesel vindo de debaixo do chão. E o cheiro de enxofre volta por um instante. Eu sei que a Cíntia Lopes Brandão, com o corpo do cobrador está dirigindo o Scania azul submerso, usando os olhos do inspetor Daniel Costa. E ela está esperando que eu cometa um novo erro. E o que me aterroriza de verdade é a pergunta: O corpo que ela encontrou no baú, com os olhos vazios, quem era o verdadeiro cobrador antes do inspetor Daniel Costa?
E por Cinntia o tinha? Eu não sei, mas eu não consigo parar de me olhar no espelho. Rezo para que os meus olhos nunca mais fiquem verdes.