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Mulher Caminhoneira desapareceu na Serra do Mar — vinte anos depois o mato mostrou o caminho

Mulher caminhoneira desapareceu na serra do mar. 20 anos depois, o mato mostrou o caminho. Meu nome é Mauro Fontes e eu sou delegado chefe há 25 anos. Eu lido com o pior do ser humano todos os dias.
Crimes passionais, latrocínios, corrupção. Mas eu nunca jamais lidei com o que aconteceu na madrugada de 21 de outubro de 2021. Eu ainda era delegado em São José dos Pinhais, no Paraná, e o turno da noite tinha sido tedioso, até que o rádio explodiu. Alerta geral.
Encontrada uma caminhoneira na estrada velha da Graciosa, desorientada e em estado de choque, enviando o capitão Marcelo Bitencur com a equipe de resgate. A Serra da Graciosa, para quem não conhece, é um trecho da Serra do Mar. Mata Atlântica fechada, clima úmido, neblina eterna e uma estrada sinuosa e abandonada que liga Curitiba ao litoral. Caminhões grandes não deveriam estar lá. Cheguei ao local antes do dia clarear. O cenário era de filme. O capitão Marcelo Bitencur, um homem pragmático e forte, estava parado ao lado de uma ambulância do SAMU. E em cima da maca, envolta em mantas térmicas, estava ela, Beatriz Bia Lima.
Bia tinha cerca de 40 anos, mas parecia ter 80. Seus olhos estavam injetados de sangue e fixos em um ponto no vazio lá para o meio da mata. Ela tremia tanto que os paramédicos mal conseguiam lhe dar soro. Ela não tinha ferimentos graves, apenas arranhões e a roupa rasgada, mas o que a atingiu foi psicológico. O caminhão dela, uma Scania 124R vermelha, foi achado cerca de 1 km adiante. Estava perfeitamente estacionada em uma clareira, as luzes acesas, o motor desligado e a chave na ignição. A carga estava intacta. Nada aparecia fora do lugar, exceto pela lona lateral da caçamba, que estava rasgada de cima a baixo, como se algo muito grande tivesse tentado sair. Capitão Bitencur se aproximou de mim, o semblante sério. Delegado, ela mal fala.
Só repete três coisas. O homem sem rosto, a carona e ele me entregou ao mato. Ela não sabe onde está, nem como chegou aqui. Vou levá-la ao hospital, mas o senhor tem que ouvir o que ela disse antes. A voz de Bia era um fio tênue. Mas o que ela descreveu eu nunca esquecerei. Eu vinha de São Paulo, ia para Paranaguá. Fim de noite, a BR16 estava um inferno. Então, decidi pegar a rota mais rápida, a estrada da morte, na serra do mar. Era por volta das 2 da manhã. A neblina estava densa, parecia leite. Foi quando vi a figura. E parou, respirou fundo e continuou. Já no meu carro descaracterizado, a caminho da cidade. Era um homem na beira da estrada. Chovia forte e ele estava encharcado. Eu sou mulher, caminhoneira, sei o risco de dar carona, mas ele parecia mais uma vítima do que um assaltante. Um moletom escuro, curvado, quase ajoelhado. Pensei: “Coitado, deve ter capotado o carro. Diminuí a marcha e abri a porta. Ele subiu, mal conseguia falar, pediu para ir para o primeiro posto. Eu perguntei o nome dele. Ele disse: “Não precisa saber o nome, irmã, é só um pedacinho de viagem.” Bia continuou. Ele estava no banco do carona, mas não parava de tremer. Estava encharcado, mas não pingava água no meu estofado. Eu acendi a luz da cabine para olhar para ele e perguntar se estava machucado. Nesse momento, Bia começou a chorar convulsivamente, apertando a manta contra o rosto. Delegado tinha outro. Havia um outro homem sentado no meio entre nós dois. Eu juro que quando abri a porta só vi um. O segundo estava de capuz apertado, escondendo o rosto.
Ele estava rígido, inerte, frio. Eu tentei acalmá-la, sugerindo que era o sono, o choque, mas ela balançou a cabeça, negando furiosamente. Eu perguntei ao homem que eu dei carona, aquele do moletom escuro. Quem é seu amigo? Ele tá dormindo. E o primeiro homem que eu chamei de Silas, não sei por o nome me veio à cabeça, ele me respondeu com a voz calma, mas com um sorriso que não era humano. Amigo, ah, irmã, esse não dorme. Esse sou eu.
Depois que o caminho acaba. Nesse ponto, Bia estava histérica. Ela disse que parou o caminhão na hora, gritando para que os dois descessem. O homem que ela chamou de Silas apenas riu. Ele apontou para o ser do meio, o de capuz apertado.
Eu olhei para o meio, delegado, e foi a última coisa que eu vi. O capuz não escondia um rosto, era um buraco, um tecido encharcado com algo duro por baixo, como se não houvesse crânio, só uma forma alongada. E então o Silas virou-se para mim e o rosto dele também começou a mudar. A pele dele escorreu como cera quente e por baixo não havia músculo nem osso. Havia uma estrutura lisa, esbranquiçada, como um plástico velho e sem forma. Ele tocou meu braço.
Não estava frio, estava quente, mas não era calor humano, era o calor de um motor ligado, fervendo. O relato de Bia Lima já havia passado do estado de choque para a pura alucinação na mente de todos os policiais que ouviram os fragmentos. Mas eu, delegado Mauro Fontes, percebi uma coisa, a coerência do pânico dela. Ela descrevia os detalhes com uma precisão que só a verdade absoluta ou a loucura extrema poderiam produzir. Ela continuou o relato na sala de interrogatório do hospital, agora mais calma, mas com os olhos fixos na porta, como se esperasse que Silas entrasse a qualquer momento.
Quando a pele dele derreteu e eu vi aquela coisa branca, ele segurou meu braço. Não doeu, mas a sensação era de estar segurando um cano de exaustão quente. O cheiro de café forte da cabine sumiu e foi substituído por cheiro de óleo diesel queimado. E ele me disse com aquela voz que parecia um motor falhando: “Eu sou o caminho”. E ele apontando para o ser sem rosto. Ele é o fim do caminho. Mas você, irmã, você não vai para o fim, você vai para o começo.
Ele abriu a porta do carona. Naquela fração de segundo, eu percebi que o caminhão não estava na estrada, estava parado em uma clareira de cascalho, onde eu nunca teria estacionado. A névoa estava densa e o som do motor escania.
Era a única coisa real. Silas me puxou.
Eu comecei a gritar, a lutar, mas a força dele era descomunal. Ele me arrastou para fora da cabine. O ser do meio ficou parado, olhando para a frente, imóvel. Ele me jogou no chão, no cascalho frio. Aquele homem sem pele, aquele monstro. E ele disse algo que me fez congelar. Ele olhou para a mata atlântica escura que parecia engolir a luz dos faróis e disse: “Você sabe demais sobre os ciclos. O lago negro não vai te aceitar. Você deve se entregar à mãe verdadeira”. Ele virou o meu corpo para a mata e me empurrou. Eu não consegui correr. Eu rastejei, olhei para trás e vi a cena que me persegue. Silas voltando para a cabine, entrando no lugar do motorista. O ser sem rosto, que ele chamava de o fim do caminho, estava sentado exatamente onde eu estava, no banco do carona, curvado, olhando para mim. E o caminhão? O caminhão não ligou.
A luz do painel piscou e o motor fez um ruído de engasgo. Silas bateu no volante com uma fúria silenciosa. Ele pegou uma faca que estava presa no console, abriu a porta do passageiro e começou a cortar a lona da caçamba, não cortando, mas rasgando com força bruta, um rasgo gigantesco de ponta a ponta. E foi quando eu ouvi um som que não vinha do caminhão, vinha da carga. Eu transportava sapatos, mas o som que vinha lá de trás era um guincho, um gemido molhado e profundo, como algo muito grande e pesado tentando se libertar. E o cheiro de diesel queimado ficou insuportável. Delegado, eu não vi o que saiu da lona. Eu não tive coragem.
Mas o Silas, aquele sem rosto de plástico, ele estava gritando de uma forma gultural, inumana. Ele estava saudando o que estava saindo e eu ouvi ele dizer: “A mãe está faminta, a noiva falhou. Dê a ela o que ela precisa para seguir o caminho.” Bia disse que nesse momento um terror instintivo a fez levantar e correr em direção ao único lugar que parecia não estar gritando. O meio da mata fechada. Ela correu até cair e lá ficou desmaiada até o sol nascer. Após ouvir o relato, eu e o capitão Bitencur voltamos à Clareira. A lona da Scânia 124R estava rasgada exatamente como ela descreveu, mas a carga de sapatos estava intacta. A única coisa faltando era uma caixa, uma única caixa grande que ficava no canto do caminhão, onde, segundo o manifesto de carga, deveria haver um conjunto de botas de segurança. A perícia encontrou na clareira marcas de pneus de caminhão pesados, mas estranhamente havia também rastros muito grandes, parecidos com a pegada de um urso, mas mais longas e finas. E o mais macabro, os rastros levavam diretamente da lona rasgada em linha reta para dentro da mata.
Continuando história 12. Bloco 3 de qu O sinal da cruz e o desaparecimento. O caso se tornou uma anomalia para a Polícia Civil. Uma caminhoneira encontrada em estado de choque, um caminhão abandonado com a lona rasgada, rastros não identificados na mata e uma história que beirava o delírio.
Oficialmente tratamos como tentativa de roubo de carga fracassada, mas eu, delegado Mauro Fontes, sabia que havia algo muito mais sinistro. O capitão Marcelo Bitencur liderou a equipe de busca na mata seguindo os rastros. A serra da Graciosa é traiçoeira, a mata é densa, escura e a neblina engole a luz do sol. Após dois dias de varredura intensa, o capitão voltou com as mãos vazias e o rosto pálido. “Delegado”, ele relatou. “Seguimos os rastros por uns 3 km. Eles terminavam em um riacho seco, mas antes de sumirem, os rastros se tornaram dois. Parecia que o bicho ou o que quer que fosse estava carregando algo. E não era pesado, era como se fosse arrastando uma boneca. Eles não encontraram a caixa de botas desaparecida, nem qualquer outra coisa, mas encontraram um único pedaço de tecido preso em um arbusto de espinhos perto de onde os rastros sumiam. Era um pedaço da blusa de Bia rasgado. Eu mantive Bia Lima sob observação no hospital por três dias. Ela estava recebendo sedativos, mas o trauma não diminuía. Ela parou de falar sobre Silas e o homem sem rosto e começou a focar em um único ponto. A lona, a lona rasgada.
Ele disse que a mãe estava faminta. Não era para dar comida, era para dar o caminho. Eu pedi a um dos meus investigadores mais experientes, que também era caminhoneiro nas horas vagas, para inspecionar o caminhão novamente.
Ele voltou com uma descoberta bizarra. O caminhão estava cheio, mas no açoalho da cabine, sob o banco do carona, havia um pequeno rastro de pó fino e branco. O laboratório analisou talco industrial misturado a um tipo de pó de osso pulverizado e grudado neste pó, encontraram minúsculos fragmentos de fibra de vidro, desses usados em isolamento de câmaras frias. Talco industrial, comum na fabricação de pneus. Pó de osso, macabro, mas inconclusivo. Fibra de vidro. sugere isolamento. O que me intrigava era a coerência da história dela com o achado do perito Dr. Lauro Bastos, anos antes, que eu conhecia de ouvir falar, no caso do Lago Guaru, o culto à montanha, a estranha fixação por caminhões e o elemento ritualístico. Na manhã do quarto dia, quando eu me preparava para iniciar um interrogatório formal, a tragédia se completou. A enfermeira entrou no quarto de Bia para aplicar a medicação e encontrou o leito vazio. A janela estava aberta e havia uma marca de lama no parapeito. Bia Lima havia fugido do hospital descalça, usando apenas o camisolão do hospital. O pânico foi imediato. O capitão Bitenkur acionou todas as patrulhas. Eu tinha certeza de que ela voltaria para a clareira na Serra da Graciosa. Nós a encontramos por volta das 16 horas da tarde, a uma curta distância do ponto de resgate. Ela não estava correndo, estava andando lentamente, descalsa em direção à entrada da mata. Parecia ter recuperado a serenidade, mas era uma serenidade gelada. Quando o capitão Bitencur se aproximou para contê-la, ela parou. Ela olhou para ele e então para mim. Seus olhos não estavam mais em pânico, estavam cheios de uma compreensão cruel.
Ela levou a mão ao peito e, com a força que não demonstrou no hospital, fez um perfeito sinal da cruz. Não era um sinal de bênção ou oração, era um sinal de despedida, de rendição. E então ela sussurrou: “A última coisa que eu ouvi dela. Ele me mostrou o caminho. A chave está no pneu. Eu não serei o dízimo, eu serei a mãe.” Antes que qualquer um de nós pudesse reagir, Bia Lima deu as costas e com uma agilidade surpreendente mergulhou no meio da vegetação densa da serra do mar. Ela não correu. Ela desapareceu na primeira camada de folhagem. como se o mato tivesse se aberto para engoli-la. Nós a procuramos por meses. Nunca mais encontramos a Beatriz Bia Lima. O desaparecimento de Beatriz Bia Lima foi arquivado como suicídio ou fuga em estado de psicose.
Mas para mim, delegado Mauro Fontes, foi a conclusão macabra de um mistério que começou na cabine daquela Scânia. A pista final que ela deixou, a chave está no pneu. Era a única coisa que restava.
Eu voltei à Scania 124R, que estava no pátio da polícia técnica, e me concentrei nos pneus. A Scania tem 10 rodas. Inspecionamos todos os pneus, os steps e as câmaras de ar. Não havia nada de anormal. O tempo passou e o caminhão permaneceu esquecido no pátio. Até que dois anos depois, ele precisou ser removido para leilão. Foi o mecânico do pátio, um senhor chamado Osvaldo, quem descobriu. Ele estava esvaziando os pneus para facilitar o transporte.
Delegado, ele me ligou. O pneu dianteiro esquerdo, ele não está furado, mas ele não tem ar e não é um vazio normal.
Parece que tem algo muito pesado dentro dele. Eu corri para o pátio. O mecânico retirou o pneu e com dificuldade conseguiu desmontá-lo. Dentro da borracha grossa, ao invés de ar, havia um objeto cilíndrico embrulhado em uma lona plástica e por cima camada de talco industrial e fibra de vidro, o mesmo que encontramos na cabine. Desembrulhamos o objeto. Não era uma bomba. nem droga.
Era um pedaço do corpo de Bia Lima, não era o crânio dela, preservado de forma grotesca pelo talco e pelo isolamento.
Eram os restos da cabeça de Bia, retirada com uma precisão assustadora. E dentro da órbita ocular esquerda havia uma pequena chave de boca enferrujada do tipo usado para trocar pneus de caminhão. A perícia confirmou: “O crânio de Bia havia sido desmembrado e colocado ali no pneu pouco antes do resgate. Era a chave que ela mencionou. Mas havia algo mais no pneu. Uma pequena bota de segurança de couro, a mesma que faltava na carga, recheada com um punhado de terra escura, um tipo de argila da serra da Graciosa. No fundo da bota, um bilhete minúsculo escrito com a letra de Bia Lima, mas com a sintaxe de quem estava fora de si. Ele me entregou a ele, que é a montanha. Ele quer 10%. Eu dei a argila. Eu sou a mãe. Eu sou o caminho. O pneu de arame é o último a dormir. O ciclo deve ser mantido. A chave está no pneu para o próximo. 20 anos de vigília. 20 anos de vigília. 20 anos de vigília. Eu me aposentei logo depois disso. Eu entendi o que aconteceu. O ser na cabine, Silas, era o caminho que transformava a vítima em o fim do caminho. O ser sem rosto, mas Bia, por ser mulher e talvez ter uma força de vontade maior, lutou. Ela foi rejeitada pelo culto do lago negro. O lago negro não vai te aceitar e foi entregue à mãe verdadeira, a própria serra do mar. A mãe aceitou o crânio de Bia, a parte mais forte da sua propriedade, o caminhão, escondendo-o no pneu, e a argila da serra, o dízimo de quem viaja. Bia, ao entrar no mato, não estava fugindo, estava se entregando para se tornar parte do ritual da montanha, o caminho que atrai o próximo sacrifício. A lona rasgada era a prova da sua luta para dar a si mesma a mata.
O que mais me apavorou foi a frase 20 anos de vigília. A história se passava em 2021. Se a caminhoneira Vivian Vivi Toledo desapareceu em 2001, exatos 20 anos antes, e se o serial killer do Lago Guaru estava ativo por décadas, então Bia Lima pode não ter sido apenas uma vítima, ela pode ter sido o catalisador.
Ela quebrou o ciclo do lago negro para iniciar um novo mais aterrorizante, o ciclo da mãe verdadeira na Serra do Mar, com um período de vigília de 20 anos.
Isso significa que em 2041 o horror voltará a acontecer na serra e desta vez ele será guiado pela própria montanha e pelo sacrifício de Bia Lima.